Fica, Sarney!

Não, é claro que eu não gostaria, de fato, que ele ficasse no cargo. Mas o movimento para derrubar o Sarney, visando ética na política, não percebeu que isso de nada adiantaria para ter ética na política- e que, além de tudo, “ética ” e “política” são tão imiscíveis quanto água e óleo.

Sarney seria o quarto presidente do Senado a cair em menos de uma década . ACM caiu há alguns anos por algo até inocente comparado com os atos secretos de hoje: ter violado o painel da cassação do Luís Estavão. Logo em seguida seu sucessor caiu, Jader Barbalho, por uma série de escandalos bem piores que o derrubou seu antecessor. Houve um pequeno tempo com um senador considerado íntegro na presidência- o falecido Rames Tebet- para depois aparecer um sujeito chamado Renan Calheiros, em cuja presidência apareceu o maior mar de lama já visto nos últimos anos. Ele caiu, mas continuou como senador e não perdeu sua influência.

Tirar o Sarney do cargo não vai mudar absolutamente nada. Pelo contrário, com uma cabeça cortada, o povo se acalma, e pensa que, enfim, a justiça foi feita. Basta punir um ou dois, da forma mais branda possível, e a opinião pública se acalma. Logo em seguida vai aparecer outro Presidente do Senado, que será protagonista de escândalos  piores que farão , como diria o saudoso Delúbio Soares, ser tudo o que veio antes esquecido e virar piada de salão.  É a mesma história, se repetindo. Enquanto isso, nosso simpático bigodinho continuará fazendo a festa nos bastidores, porque seus tentáculos gosmentos não diminuirão o alcance apenas por ele perder a presidência.

Sou cético em relação a considerar a existência de “ética” na “política” por considera-las opostas. É como essa questão de lotear cargos no governo em troca de apoio político: não é, de forma alguma, ético um partido se vender por cargos para votar ao favor do governo, ao invés do governo nomear como ministro a pessoa mais adequada para exercer aquela função, enquanto os partidos votam por sua consciência. Entretanto, isso é inevitável num regime democrático.  E nem preciso gastar meus dedos para dizer que uma ditadura seria muito pior do que isso.

Ética impõe, ante de mais nada, em o indivíduo se voltar para o bem comum.  Política é uma relação que sempre impõe hierarquia, onde uns mandam e outros obedecem.  Isso é contrário a uma relação verdadeiramente ética, pois voltamos para o bem comum não de forma coagida, mas sim quando nossa natureza é transformada ao ponto de ver o próximo dentro de si.

Amar a si mesmo é anelar o crescimento interior e tal crescimento implica em compreender o quanto cada indivíduo está conectado – não sou magalomaníaco a ponto de querer definir a palavra “amor”, mas posso dizer que ele passa a surgir quando uma pessoa passa a ver o próximo dentro de si.  E é esse valor que pauta as relações verdadeiramente éticas. O amor é incompatível com relações entre comandentes e comandados, que são o funadamento do poder, em cima da qual se estrutura a política. A natureza política é fundamentada no poder, e como tal, é inseparável de negociatas, acordões, alianças bisonhas e tudo o mais que sempre acompanhou nossos noticiários.

Não existe, portanto, ética na política. Mas há uma luz no fim do túnel.  Nossos sistema, por mais capenga que seja, é melhor do que o assistimos no passado, como ditaduras sanguinárias, monarquias absolutistas e laços de servidão.  Se acontecer algum novo movimento de transformação humana como houve no passado, a política será transformada, não ela própria, mas de dentro da fora – como consequencia da transformação interior dos próprios indivíduos que foram a sociedade, seu grande sustentáculo. Isso já aconteceu algumas vezes – basta estudar história para ver que houve momentos de grandes transformações. O que cabe cada um de nós é moldar em nós mesmos essa transformação, já que a única revolução, como todos estamos cansados de ouvir, é interna.

Just – Living

Just  -  Living

Soon she’s down the stairs
Her morning elegance she wears
The sound of water makes her dream
Awoken by a cloud of steam
She pours a daydream in a cup
A spoon of sugar sweetens up

As animações feitas em stop motion, se produzidas com alguma imaginação fornecem efeitos verdadeiramente excepcionais. A técnica consiste basicamente em montar uma cena onde o vídeo é feito fotograma a fotograma, entre os quais, os objectos são movimentados ligeiramente. O resultado final é um filme que dá uma nova perspectiva a todo o tipo de objectos, onde estes assumem novas formas e ganham vida, desafiando todas as leis da fisica, bem como a nossa própria percepção do mundo.

Fy

Zenpoesia

enso

A Lua brilha no céu.

A Lua brilha no céu da Terra.

A Lua brilha no céu da Terra e reflete no lago.

A Lua brilha no céu da Terra e reflete no lago a luz do Sol.

A Lua brilha no céu da Terra e reflete no lago a luz do Sol no cosmos brilhante.

A Lua brilha no céu.

O lago é brilhante.

O Sol brilha.

Mitopoesia

sol

Tome-se o Sol redondo e coloque o homem no centro

– como a medida de todas as coisas.

Pegue-se o conjunto humano e promova humana cultura

– cultuemos os gêneros como medida.

urano

(O Sol é a luz convexa do espírito que a tudo ilumina; a Lua é a alma côncava no corpo da Terra esquecida.)

marte

O homem é então todas as medidas, menos ele é a mulher.

O que é a mulher?

Antes da medida é a desmedida das fases

Antes da referência é a subumana cultura

Mulher é mênstruo: bicho-lua.

lua

Principia o mês Perséfone menina

Nua e nova, objeto do céu – céu que nem se apercebe violado objeto

plutao

Menina que não deseja, antes é desejada

Primeiro pela mãe, depois pelo marido

Primeiro a primavera, depois o inverno

Sempre uma estação depois da outra – dividida.

lilith

Oculta a minguante, esquecida a Deméter

Mal morre e já nasce em crescente Afrodite

Outra mulher: mulher desejante

Deusa venusiana de amor mendicante

venus

Peça-lhe tudo: trabalhe e enfeite-se, ore e erija-lhe templos

Colha da messe prodígios, beleza, delícias

Receba tudo, menos fidelidade.

Só cheia de amor a lua pode ser monogâmica

Psiquê à espera de Eros esperando Volúpia…

mercurio

Se uma mulher olha para outra mulher e insiste o olhar

É antes para descobrir em qual fase ela está – ela e a outra

Mulher cambiante que nunca está onde se põe

Precisa do espelho para se ver refletida

No contraste e na inconstância da amiga.

terra

Mulher objeto tridimensional, quatro fases, dupla jornada

Mulher mensal bicho-lua mutante

Pedaço da Gaia antiga orbitando no céu de agora

Ardendo ao Sol no espaço, gelando no vazio

saturno

Refletida no lago

Orquestrando de longe os líquidos: a gota, o pus, o pântano

Movimentando marés

A vida dos homens.

netuno

A Lua é a alma côncava no corpo da Terra esquecida;

O Sol é a luz convexa do espírito que a tudo ilumina.

jupiter

As transformações Iniciáticas – primeira parte

Ainda  há muito mistério em torno dos rituais iniciáticos, e também muito mistério sobre os segredos revelados ao iniciado. Nas “ordens iniciáticas” ainda se mantém os ritos, esperando-se que o ritual desperte as verdadeiras mudanças no interior do iniciado. Há também aquela transformação ou iniciação que ocorre naturalmente, onde é o próprio Self  quem conduz as expansões da consciência, ou as transformações que se dá no interior, na psique  do indivíduo.

No processo de Individuação (que é o mesmo que iniciação), a transformação ocorre por conta do próprio inconsciente do indivíduo, e nesse desenrolar, é onde o indivíduo vai se tornando quem realmente é, ou seja, vai se apartando da consciência coletiva, ou da consciência grupal,  de massa, ou das tais egrégoras, e se tornando/conscientizando-se  de “Si-mesmo”.

Vou aqui, citar um capítulo do livro de Jung, “Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo”, que fala sobre a atuação da consciência coletiva sobre o indivíduo.

“Há uma forma de transformação que pode ser chamada de identificação com o grupo. É quando da identificação de um indivíduo com um certo número de pessoas que têm uma vivência de transformação coletiva. É uma situação psicológica especial e que não deve ser confundida com a participação em um ritual de transformação, o qual é realizado de fato diante de um grupo ou público, mas não depende de forma alguma de uma identidade de grupo.0,,11121328,00 É uma coisa bem diferente vivenciar a transformação no grupo do que em si-mesmo. Em um grupo maior, entre pessoas ligadas ou identificadas entre si por um estado de ânimo peculiar, cria-se uma vivência de transformação que tem apenas uma vaga semelhança com a transformação individual.

Uma vivência grupal ocorre em um nível inferior da consciência em relação à vivência individual. É um fato que, quando muitas pessoas se reunem para se partilhar de uma emoção comum, emerge um alma conjunta que fica abaixo do nível de consciência de cada um. Quando um grupo é muito grande cria-se uma espécie de alma animal coletiva. Por esse motivo a moral de grandes organizações é sempre duvidosa. É inevitável que a psicologia de um amontoado de pessoas desça ao nível mais baixo. Clique aqui e leia mais…

O meio entre os opostos

Desde sempre as mais variadas tradições falam sobre a trindade divina, e sobre aquele aspecto que vem resolver o problema da dualidade. Há um meio, moderador entre os opostos, queiramos ou não, entendamos isso ou não.

De certa forma, esse tema sobre os opostos, sobre as dualidades, sobre as parcialidades é ainda muito complicado por causa do tema em si mesmo, ou seja, é sobre parcialidades, opostos e dualidades, e a tendência é sempre estar em um dos lados de cada situação da vida, e quando estamos em um lado da questão, automaticamente excluímos o outro lado, nos agarramos as nossas convicções, e já partimos do pré-suposto que o outro lado está errado, não é o correto, é falho.

A realidade da vida é muito mais que isso, é muito mais que apenas uma possibilidade possível na dualidade, é muito mais que um ponto de vista na díade, é muito mais que certo ou errado, é muito maior que os opostos; e por isso o conflito, pois temos que lidar com esses opostos o tempo todo, diariamente na própria vida em que vivemos.

androsEssa questão dos opostos assombra o homem desde sempre, e com certeza, é um dos motivos ou impulsos principais na busca por resolver esse conflito que dói na Alma humana, e muito provavelmente, a partir dessa busca, as mais variadas tradições se dedicam a essa questão.

Segundo a psicologia, a psique, como a maioria dos sistemas naturais, tais como o corpo, luta para se manter em equilíbrio. Fará isso, mesmo quando suscita sintomas desagradáveis, sonhos assustadores ou problemas da vida aparentemente insolúveis. Se o desenvolvimento de uma pessoa foi unilateral, a psique contém em si todo o necessário para retificar essa condição.

A função compensatória empiricamente demonstrável operando em processos psicológicos correspondia a funções auto-reguladoras do organismo, observáveis na esfera fisiológica. Compensar significa equilibrar, ajustar, suplementar. Considerava a atividade compensatória do Inconsciente como equilíbrio de qualquer tendência para a unilateralidade por parte da consciência.

O objetivo do processo compensatório parece ser o de ligar, como uma ponte, dois mundos psicológicos. Essa ponte é o símbolo; embora os símbolos, para serem eficazes, devam ser reconhecidos e compreendidos pela mente consciente, isto é, assimilados e integrados. Clique aqui e leia mais…

Homenagem a Raulzito

Ontem 21 de Agosto, fez vinte anos que um dos maiores musicos do nosso País, Raul Seixas,  morreu. Raul não foi só um músico, foi um artista genial, que inovou com sua obra, abriu cabeças e deixou uma mensagem que ainda hoje é atual. Com certeza ele estava muito a frente de seu tempo.

Um pouquinho dele pra matar a saudade:

Raul Seixas era um garoto muito tímido na infância e na adolescência, e só vivia trancado no quarto lendo e compondo. Seu sonho no inicio era ser um escritor, até o Rock n Roll aparecer em sua vida. Nesse momento, nas telas dos cinemas, encanta-se com o talento de Elvis, de quem torna-se fã – e aponta-lhe o rumo musical: o Rock’n Roll. Sempre gostou também de clássicos do rock dos anos 50 e 60.

  • Raul Seixas desde criança escrevia textos e poesias. Fazia também revistas em quadrinhos para seu irmão (Plínio) a quem vendia. Seu sonho também era ser um escritor.
  • Raul Seixas e Waldir Serrão foram um dos primeiros garotos a terem contato com discos de Rock n Roll no Brasil, na Bahia, por que estava infestada de americanos nos anos 50/60, que se mudavam por questões de trabalho, assim toda a cultura do Rock foi trazida através deles.
  • No final dos anos 60, Raul Seixas teve um encontro com Mick Jagger. Que o incentivou a tocar música africana, pois vendo a música brasileira na raíz, havia percebido que a bossa nova era uma farsa.
  • Raulzito e os Panteras (banda de Raul) acompanhava artistas de pedigree que iam fazer shows na Bahia, entre eles: Roberto Carlos, Jerry Adriani e Wandérleia.
  • Raul Seixas passou nos primeiros lugares no vestibular de Direito, para impressionar a familia de Edith, que seria desde então a sua primeira esposa.
  • No inicio dos anos 70, Raul ao lado de Leno ( Da dupla Leno e Lilian ) gravou um disco chamado “Vida e Obra de Johnny McCartney”, um disco que caso fosse lançado seria uma evolução musical incrível para a época, pois seria um divisor de águas entre a Jovem Guarda e o Rock Nacional, porém pelo forte teor político, ele foi censurado. Raul divide parceria com Leno em 6 faixas do Disco. “Sentado no Arco-Iris”, segundo Leno, foi a primeira letra que Raul tivera realmente orgulho de escrever, lembrando que desde então suas letras eram românticas feitas para a Jovem Guarda.
  • Antes de ser cantor, Raul Seixas atuou como Produtor da CBS, produzia diversos artistas da Jovem Guarda, e compunha para eles também, entre artistas que gravaram suas canções destacam-se: Jerry Adriani, Diana, Leno e Lilian, entre outros.
  • A primeira música assinada por Raul Seixas/Paulo Coelho, “Caroço de Manga”, na verdade foi composta apenas por Raul Seixas, para incentivar o amigo, ele colocou o nome de Paulo Coelho na música, que mais tarde afirmou que aprendeu a escrever graças a linguagem popular que Raul Seixas o ensinara. Outra questão interessante é que os parceiros de composições de Raul Seixas costumavam ser seus amigos e por vezes até suas mulheres, frisando que Raul Seixas era muito generoso em dividir parcerias com todos eles.
  • Raul Seixas no Festival Internacional da Canção, escreveu duas músicas, Let me sing, Let me sing my Rock’n Roll e Eu sou eu, Nicuri é o Diabo, na primeira ele dividiu parceria com sua primeira mulher, para driblar o regulamento, que só exigia que apenas uma música por compositor fosse escrita no concurso.
  • Raul Seixas compôs Metamorfose Ambulante aos 12 anos.
  • A canção Gita, foi inspirada no livro hindu, chamado Baghavad Gita. Raul Seixas afirmou que compôs a música para falar de DEUS, como um “todo”. Clique aqui e leia mais…

Grandes são os desertos, e tudo é deserto – Álvaro de Campos

Partilhando:

Grandes são os desertos, e tudo é deserto.
Não são algumas toneladas de pedras ou tijolos ao alto
Que disfarçam o solo, o tal solo que é tudo.
Grandes são os desertos e as almas desertas e grandes
Desertas porque não passa por elas senão elas mesmas,
Grandes porque de ali se vê tudo, e tudo morreu.

Grandes são os desertos, minha alma!
Grandes são os desertos.

Não tirei bilhete para a vida,
Errei a porta do sentimento,
Não houve vontade ou ocasião que eu não perdesse.
Hoje não me resta, em vésperas de viagem,
Com a mala aberta esperando a arrumação adiada,
Sentado na cadeira em companhia com as camisas que não cabem,
Hoje não me resta (à parte o incômodo de estar assim sentado)
Senão saber isto:
Grandes são os desertos, e tudo é deserto.
Grande é a vida, e não vale a pena haver vida.

Arrumo melhor a mala com os olhos de pensar em arrumar
Que com arrumação das mãos factícias (e creio que digo bem)
Acendo o cigarro para adiar a viagem,
Para adiar todas as viagens.
Para adiar o universo inteiro.
Volta amanhã, realidade!
Basta por hoje, gentes!
Adia-te, presente absoluto!
Mais vale não ter que ser assim.

Comprem chocolates à criança a quem sucedi por erro,
E tirem a tabuleta porque amanhã é infinito.

Mas tenho que arrumar mala,
Tenho por força que arrumar a mala,
A mala.
Não posso levar as camisas na hipótese e a mala na razão.
Sim, toda a vida tenho tido que arrumar a mala.
Mas também, toda a vida, tenho ficado sentado sobre o canto das camisas empilhadas,
A ruminar, como um boi que não chegou a Ápis, destino.

Tenho que arrumar a mala de ser.
Tenho que existir a arrumar malas.
A cinza do cigarro cai sobre a camisa de cima do monte.
Olho para o lado, verifico que estou a dormir.
Sei só que tenho que arrumar a mala,
E que os desertos são grandes e tudo é deserto,
E qualquer parábola a respeito disto, mas dessa é que já me esqueci.
Ergo-me de repente todos os Césares.
Vou definitivamente arrumar a mala.
Arre, hei de arrumá-la e fechá-la;
Hei de vê-la levar de aqui,
Hei de existir independentemente dela.

Grandes são os desertos e tudo é deserto,
Salvo erro, naturalmente.

Pobre da alma humana com oásis só no deserto ao lado!

Mais vale arrumar a mala.
Fim.

Álvaro de Campos
4-9-1930

Só de sacanagem…

Carl Orff: Carmina Burana

Libretto original e traduzido:

carmina_burana

Mil bravos! De aplaudir em pé: