Anoitan

“Se sempre há um amanhã, sempre há um anoitã.”

Arquivo da categoria ‘Religião’

Budismo e Psicologia: os seis reinos de renascimento e as disposições da psique na vida presente

Publicado por Sem em maio 2, 2012

Eu manisfestei um corpo de sonho

para o benefício de seres de sonho

imersos em sofrimento de sonho;

eu não vim e eu não vou.

Estas foram as últimas palavras atribuidas a Buda antes de morrer. Uma leitura ocidental precipitada destas palavras poderia classificar o budismo como uma religião niilista, mas, para quem mergulhar até o fim nas águas profundas dos ensinamentos de Buda, vai encontrar, justo o contrário, o significado da existência.

Introdução:

Nesse texto se descreverá os seis reinos do renascimento cíclico dos seres, como de modo geral estão descritos na doutrina budista, e, sem se ater a nenhuma escola em específico, seu objetivo será comparar a descrição dos reinos com as disposições da psique – os complexos mentais e emocionais conscientes e inconscientes dos indivíduos, de acordo a Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung.

Embora o texto não tenha a intenção de ser um ensinamento budista, e nem um tratado de PA, tenciona trazer a sabedoria do budismo para nos auxiliar na compreensão de nossas vidas, de como em nossos relacionamentos dispomos dos nossos estados emocionais interiores e de como eles são determinantes ao próprio modo de nos relacionar – conosco mesmos, inclusive, – produzindo felicidade ou infelicidade a nós e aos outros seres.

Uma última advertência à leitura do texto, se o que se propõe é transpor os reinos do renascimento a uma interpretação psicológica, todos os seis reinos possíveis devem ser entendidos como metafóricos, todos servem como metáforas para a vida presente que temos – a única possível para a existência de uma psique individual –, sem nos referir a uma reencarnação futura ou passada, mas de que já vivemos todas as vidas aqui, agora, e colhemos os frutos imediatamente aqui e agora, de nossa paz ou agonia interior. Assim é que dispomos a nossa psique no mundo, considerando todas as variáveis internas e externas a que estamos sujeitos.

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II Simpósio Brasileiro de Hermetismo

Publicado por adi em maio 19, 2011

Atendendo solicitação da nossa amiga Luiza, segue programação do II Simpósio Brasileiro de Hermetismo e Ciências Ocultas, que se realizará na cidade de São Paulo no Nikkei Palace Hotel, nos dias 23, 24 e 25 de junho de 2011.  O evento contará com experientes palestrantes.  Vagas limitadas, então garanta já a sua participação !!

Para maiores detalhes, direto no site:   II Simpósio de Hermetismo

O programa do Simpósio poderá sofrer alterações de temas e palestrantes a qualquer momento.

23/jun/2011

08:30 - 08:50 – Abertura Oficial

08:50 – 10:50 – Astrologia Hermética – Marcelo Del Debbio

11:00 – 12:45 - Umbanda, Xamanismo e Magia – Alexandre Cumino

12:45 – 14:00 – Almoço

14:00 – 16:00 – O Tarot de Crowley e a Magia Sexual Thelemica – Frater Goya

16:00 – 16:30 – Coffe Break

16:30 – 18:00 – Alquimia

18:00 – 20:00 – Xamanismo: O Arquétipo Animal como Chave do Auto Conhecimento -Fernando Maiorino

20:00 – Jantar de Confraternização

24/jun/2011

09:00-11:00 – Arquitetura Simbólica: Simbologia, Geometria Sagrada e o Ser – Márcio Lupion

11:10 – 12:40 -  I Ching, do Xamanismo ao Computador – as relações entre o Livro das Mutações e o xamanismo antigo chinês, as tradições milenares taoístas e a ciência moderna – Gilberto Antônio Silva

12:40 – 13:50 – Almoço

13:50 - 15:50 – Magia Egípcia: O Novo Equinócio dos Deuses – Frater Goya

15:50 – 16:10 – Coffe Break

16:10 – 18:10 – As escolas iniciáticas da Kabalah: Judaica, Cristã, Hermética, Maçônica e Mágica – Edmundo Pellizzari

18:15 – 20:15 – Mesa Redonda - O lado místico das religiões: Sufismo, Hinduismo, Cristianismo e Judaísmo

25/jun/2011

09:00 – 11:00 – A Felicidade segundo a ótica da Magia Cerimonial – André Calladan

11:10 – 12:45 – Magia do Budismo Esotérico – Renan Romão

12:45 – 14:00 – Almoço

14:00 – 14:55 – Visão da Teosofia sobre os 7 raios – Carlos B. Conte

15:00 – 16:00 – As 7 raças humanas - Carlos B. Conte

16:00 – 16:30 – Coffe Break

16:30 – 18:00 – LHP – O Caminho da Mão Esquerda – Adriano Camargo

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Uma resposta para o Bem X Mal

Publicado por Sem em setembro 1, 2010

Como o meu comentário em resposta ao post Bem X Mal excedeu em tamanho e avolumou-se nas questões imbricadas em decorrência ao tema, resolvi abrir um post comentário-resposta às questões inicialmente lá levantadas pela Adi, a autora do post, e depois desenvolvidas nos comentários.

Adi, reconheço a minha incapacidade em sintetizar num único comentário uma resposta cabível a tema que no meu entender alavanca o mundo, a questão das dualidades. Conto com a sua compreensão, sempre tão generosa, e aproveito para agradecer a oportunidade que você nos trouxe, a mim e aos leitores do Anoitan – eu particularmente encaro a oportunidade como um desafio em dar continuidade àquelas minhas especulações e teorias a respeito das relações… Por todos os lados, minha cara Adi, muito obrigada!

No entanto eu temo que em meio a assunto com tantas imbricações, arrisque me perder por esses labirínticos espaços do céu e do inferno, do autoconhecimento e da construção da moral do homem pelo homem. Devo tornar brevemente ao assunto da luta que vem se arrastando por séculos e conta com o tempo da história da nossa civilização, a luta entre o monismo de Parmênides e o atomismo de Demócrito. Este assunto, especificamente, foi pauta de outro post meu, pode ser lido por aqui. Neste de cá pretendo me demorar nas abordagens competitivas e/ou colaborativas que as pessoas estabelecem em suas relações – válido para todas as pessoas e todas as relações, sem exceções. E pretendo justificar por qual motivo avalio positivas ou negativas, não as ações em si do competir ou colaborar, mas o modo pelo qual os sujeitos são afirmados ou negados, que eu entendo como os princípios agregadores ou desagregadores que transparecem nas relações. Vou falar também de como me nasceu esta ideia através do meu trabalho em educação com jogos…

Vamos lá, começar do começo, que de outro lugar seria impossível, e estender um fio pelos tortuosos corredores das regras e das leis que os homens inventam para regular sua convivência, para chegar ao ambicionado centro, não de uma moralidade única, perfeita, eterna, mas, de uma ética permeada ao viver humano. É muita coisa, estou com medo de me perder…

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Sobre Egrégoras

Publicado por adi em maio 28, 2010

Desde o último post, venho pesquisando sobre plano astral segundo algumas tradições, e também em termos da psicologia junguiana, com o objetivo de fazer uma analogia entre elas, o que, pra minha surpresa, não é que uma coisa leva a outra, que se emenda com outra, e assim, o post mesmo sobre plano astral vai ficar mais pra frente, talvez como uma continuação deste aqui.

Uma das coisas que acho bem interessante no meio ocultista é a importância que se dá para a egrégora, ou ao grupo ao qual se pertence, e sobre os benefícios de ficar sobre a égide de tal força. Aos que buscam a total realização espiritual, tal força pode até ser um empecilho.

Mas o que são egrégoras exatamente, e como essa força pode nos ajudar ou atrapalhar em nossa caminhada?

Direto do Wikipédia:  Egrégora, ou egrégoro para outros, (do grego egrêgorein, Velar, vigiar), é como se denomina a entidade criada a partir do coletivo pertencente a uma assembléia. Segundo as doutrinas que aceitam a existência de egrégoros, estes estão presentes em todas as coletividades, sejam nas mais simples associações, ou mesmo nas assembléias religiosas, gerado pelo somatório de energias emocionais e mentais de duas ou mais pessoas, quando se reúnem com qualquer finalidade. Assim, todos os agrupamentos humanos possuem suas egrégoras características: as empresas, clubes, igrejas, famílias, partidos etc., onde as energias dos indivíduos se unem formando uma entidade (espírito) autônomo e mais poderoso (o egrégoro), capaz de realizar no mundo visível as suas aspirações transmitidas ao mundo invisível pela coletividade geradora, ou seja, sua ideologia. Em miúdos, uma egrégora participa ativamente de qualquer meio, físico ou abstrato.

Como vimos então, egrégoras são formadas pelas formas-pensamentos criadas a partir da união do mesmo pensamento em comum de uma assembléia, de um grupo, ou seja do coletivo reunido com o mesmo objetivo. Quanto mais forte e mais frequente for essa egrégora, mais força vai acumulando, se tornando uma entidade autônoma. Leia o resto deste post »

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Fenômenos Psíquicos

Publicado por adi em maio 13, 2010

No final de semana passado assisti dois filmes, interessantes no sentido em que  retratam bem sobre aspectos do “psíquico” em nós, assunto esse que tem me interessado já a algum tempo, e assistir os filmes foi o gatilho que precisava pra atualizar essas questões cá comigo. Ao mesmo tempo, precisava fazer as associações certas que fizesse sentido, e  entender (se é que isso seja possível), como tais coisas ocorrem.

Os filmes em questão, Caso 39 e Contatos de quarto grau ( este já havia assistido no cinema), e que não pela história em si, os roteiros são fracos até, fictícios eu sei, mas por tratarem ambos de tipos diferentes de  possessão, no filme Caso 39 de uma possessão demoníaca, e no filme Contatos de quarto grau, excluindo toda a historinha montada pra parecer verídico, sabemos que em casos relatados através de hipnose, de abduções ditas verdadeiras, é mais ou menos como demonstrado no filme, o que nos lembra em muito como possessão de alguma força, que muito embora se manifeste no indivíduo, parece como que vinda de fora, que não  pertence ao indivíduo.

Se juntou a isso, um monte de dúvidas sobre o “plano astral e mental” descrito pela Teosofia,  e também descrito pelo Espiritismo numa versão parecida, entre outras correntes esotéricas que também descrevem, como sendo planos povoados por espíritos desencarnados, ou seres, de todos os tipos, desde  os maléficos até os bondosos e angelicais, mestres ascencionados, etc, etc. De como contatamos esses seres, recebemos mensagens, ou no caso dos maléficos, somos possuídos por eles contra nossa própria vontade, etc.

E tentar entender; porque, pra mim, não é suficiente acreditar que se trata de entidades ou seres desencarnados num plano mais evoluído, que por sinal é uma cópia idêntica daqui, só que mais sutil, e ainda outros tantos planos e divisões hierárquicas (essa palavra sempre me disparou um alerta interior) cada qual mais sutil e elevado; ou que seres extra-terrestres estão a nos contatar, abduzir, fazer experimentos e apagar nossa memória, ou então vieram pra nos ajudar em nossa evolução ou nos salvar. Não que fantasmas, espíritos ou extra-terrestres não existam, há uma hipótese provável que sim, eles existam, bem como há uma hipótese provável de que nada disso exista e que tais fenômenos não passam de fantasias ou ilusões criadas na mente. Leia o resto deste post »

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A TIRANIA DO EGO

Publicado por adi em maio 3, 2010

Há ainda muita confusão sobre o processo de “individuação” de Jung, talvez porque a palavra “individuação” nos faz pensar em indivíduo, e indivíduo significa pessoa, sujeito, que também pode ser uma individualidade , ou seja, aquilo que constitui o indivíduo, o caráter ou personalidade.  Talvez porque esse processo seja também equivalente ao processo de desenvolvimento espiritual, e os teósofos sempre se referiram ao Espírito ou Centelha como “eu superior”,  termo esse inadequado pra designar o Espírito, o atemporal.  Fato é que,  por causa dessa confusão, muitos igualam/equiparam o “ego” com a consciência, algumas vezes Jung escreveu de forma ambígua a esse respeito, por isso, interpretam esse processo de individuação como uma “identificação” do ego  com a Centelha/Espírito.

Tem sido muito difundido ultimamente por modalidades diferentes de psicoterapia e psicanálise que o processo de individuação ou realização espiritual se refere como uma “espiritualização do ego”,  da conexão do ego com o divino,  da identificação do ego  com o Espírito, da ligação do ego com a Essência/Centelha, fonte última de força, de onde o ego conectado expressa essa força (poder)  e retira dela (força)  resultados concretos, como “sacudir as fundações do mundo” ou “grandes reformas sociais”, e que o “ego é uma gloriosa manifestação do Espírito”. Isto posto, fica claro que o objetivo dessa postura/interpretação é colocar os poderes do plano espiritual  subordinados  ao “grande ego” que expandiu seus limites ao ponto de abarcar essas forças. Essa postura que vem sendo muito difundida, confundindo em muito a mente das pessoas, também pode ser descrita como “fortalecimento do ego”,  e que, esse processo, visa a plena adaptação à vida tal qual ela é, ou seja, a adaptação ao que aprendemos a chamar de “realidade”. Essa adaptação, é exatamente o que contribui para manter as pessoas acorrentadas ao sistema de dominação, ou sístase.

Em total oposição a essa interpretação, sempre se mostraram as religiões e filosofias, especialmente as orientais, que sempre enfatizaram a “transcendência do ego”,  pois o ego é o principal obstáculo à realização espiritual. Alguns místicos também se referem a essa mesma transcendência do ego, de forma “simbólica e metafórica”, como sendo a morte do ego, ou seu aniquilamento.

E aqui surge um novo problema, porque segundo essas modalidades de psicoterapia, a transcendência do ego implica em “incluir” o próprio, e a ausência do ego acarretaria em psicose, ou seja, delírios e alucinações, além de perda cognitiva – escolhas, julgamentos e decisões – e não em “iluminação”.

Obviamente, em portadores dessa patologia tal coisa é assim, e os hospitais psiquiátricos podem comprovar, mas isso não significa que tais pessoas possuem tal patologia em consequência de suas buscas espirituais, muito menos podemos comparar um Krishnamurti, um Ramana Maharshi , ambos grandes sábios iluminados de nosso tempo, com os portadores de psicose. Essa interpretação não parece satisfatória. Leia o resto deste post »

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A Terceira Inteligência

Publicado por adi em abril 20, 2010

Uma frente avançada das ciências, hoje, é constituída pelo estudo do cérebro e de suas múltiplas inteligências. Alcançaram-se resultados relevantes, também para a religião e a espiritualidade.  Enfatizam-se três tipos de inteligência. A primeira é a inteligência intelectual, o famoso QI (Quociente de Inteligência), ao qual se deu tanta importância em todo o século XX. É a inteligência analítica pela qual elaboramos conceitos e fazemos ciência. Com ela organizamos o mundo e solucionamos problemas objetivos.

A segunda é a inteligência emocional, popularizada especialmente pelo psicólogo e neurocientista de Harvard David Goleman, com seu conhecido livro A Inteligência emocional (QE = Quociente Emocional). Empiricamente mostrou o que era convicção de toda uma tradição de pensadores, desde Platão, passando por Santo Agostinho e culminando em Freud: a estrutura de base do ser humano não é razão (logos) mas é emoção (pathos). Somos, primariamente, seres de paixão, empatia e compaixão, e só em seguida, de razão. Quando combinamos QI com QE conseguimos nos mobilizar a nós e a outros.

A terceira é a inteligência espiritual. A prova empírica de sua existência deriva de pesquisas  recentes, dos últimos 20 anos, feitas por neurólogos, neuropsicólogos, neurolingüistas e técnicos em magnetoencefalografia (que estudam os campos magnéticos e elétricos do cérebro). Segundo esses cientistas, existe em nós, cientificamente verificável, um outro tipo de inteligência, pela qual não só captamos fatos, idéias e emoções, mas percebemos os contextos maiores de nossa vida, totalidades significativas, e nos faz sentir inseridos no Todo. Ela nos torna sensíveis a valores, a questões ligadas a Deus e à transcendência. É chamada de inteligência espiritual (QEs = Quociente espiritual), porque é próprio da espiritualidade captar totalidades e se orientar por visões transcendentais. Leia o resto deste post »

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A religião verdadeira

Publicado por Sem em fevereiro 2, 2010

Ao longo dos anos vamos acumulando tantos documentos no computador quanto livros pelas estantes, roupas nos armários, móveis pela casa… Mudamos de computador, mudamos de casa, mudam as estações e com elas as nossas necessidades, mas as tralhas continuam, só porque um dia ali estiveram e em algum ponto foram úteis, ali permanecem, como que em estado de inércia vegetativa existencial, ou pior, a nos prestar o desserviço de agora nos distrair das coisas hoje mais importantes…

Sendo assim, conselho de virginiana, bom é se desfazer para fazer melhor circular o Chi, não ter dó nem piedade de jogar fora o que não nos serve mais – se é que algum dia serviu, ou de passar adiante se por ventura tiver alguém interessado naquela tralha. Afinal, ser tralha é só uma questão de ponto de vista… Mas claro que para separar o que [nos] presta do que não [nos] presta [mais], precisamos de um certo discernimento, ou amadurecimento, porque saber daquilo que necessitamos é, de repente, descobrir quem somos ou do momento que estamos vivendo, e essa tarefa é a mais impossível entre todas.

Mas guardar tralhas serve tão somente para nos distrair das outras coisas que realmente merecem os nossos cuidados. Faz mal ter guardado o que não nos serve mais, melhor é deletar o imprestável no oco do vazio que a tudo absorve e nunca se preenche, assim criar o espaço para que outros sentidos possam nos preencher e nos organizar numa outra dinâmica… Melhor um espaço vazio, cheio de significado, do que um espaço cheio de significados vazios…

No meio de documentos que nem sabia que tinha, alguns até sem saber o porquê os tinha guardado, encontrei essa pérola que vou guardar pelos próximos computadores que ainda tiver vida afora. Não passo adiante no sentido de me desvencilhar do texto, mas de dividi-lo com quem aqui me lê para amplificar o seu sentido. Quando eu comecei a ler – A religião verdadeira – só para saber do que se tratava, pensei que tinha sido eu que o tinha escrito há algum tempo – me pareceu familiar, mas é assim mesmo quando nos identificamos com um texto, ele primeiro nos lê, antes que nós o possamos ler… No entanto logo no segundo parágrafo percebi que não tinha sido eu a autora, é que eu sei que não sou um monge budista, sequer sou budista, só a minha alma é que segue insistindo em ser…

Falar em uma religião verdadeira talvez possa ser interpretado da seguinte forma: se há uma verdadeira outras são falsas. Claro, sempre a minha em relação às outras. Neste caso, existe um centro irradiador de verdade em detrimento às zonas periféricas. Pode ser que a maior fraqueza das tradições monoteístas seja justamente neste ponto. Existe uma verdade. Esta verdade é única. Portanto, desconsidero todas as demais como falsas. Assim forma-se uma dialética negativa como maneira de afirmar o meu ponto de vista. Também existe nesta situação um recorte dual: o meu e o do outro. Inclusive, estendemos a dualidade no campo da relação com o sagrado: eu e a verdade.

Certa vez, acompanhando o então Superior Miyoshi à Paraíba, a fim de participar de um encontro multireligioso um estudante fez a seguinte pergunta: “Qual é a religião verdadeira?”. Sem muito pensar, a resposta foi enfática: “Aquela que promova o bem estar para a maioria”. Entendi esta colocação de uma maneira mais prática frente às adversidades. De que uma religião deveria atender as necessidades humanas em primeiro lugar e depois às querelas metafísicas dos dogmas. E neste mundo há idéias demais e pouca ação. Aliás, existe também uma espécie curiosa de “budistas” que se dizem como tais navegando nas ondas da internet e discutindo idéias apenas. Encontrei certa vez um amigo, que treinara zazen mas depois se afastou mas continua “praticando” ao ler os textos budistas. Muito estranho isso. Me parece aquele “entendido” na culinária mundial apenas lendo os livros de receita. Sem provar da comida, nada pode-se falar a respeito dela.

Então estudante de História, em algum momento do curso veio como rajada aquele refrão provocatico: “a religião é ópio do povo”. Pensei naquele momento que realmente a religião fosse isso. Não mudei de opinião. O que mudou foi a amplitude da minha reflexão a respeito desta colocação. Há muitas religiões que oferecem ópio, não porque elas assim querem. Existem pessoas que precisam de ópio para continuar vivendo. Quer dizer, o mundo é cruel: os homens são maus, o capitalismo é injusto, a política é corrupta, a justiça é falha, a educação é insuficiente. E ao apegar-se à ideologia salvítica dos profetas milagreiros, como ópio, uma multidão de necessitados fazem fila.

E o budismo também é ópio? Pode-se tornar caso houver praticantes que necessitem desta droga. Se a prática budista consistir na idolatria, sejam das imagens, da alegoria, das cantorias, ou de seu líder. Este é o ópio. Assim, o budismo pode ser tudo aquilo que o praticante desejar que ele seja. Pode-se acreditar no poder de Buda e de seus avatares. E no poder dos mestres? Penso que o pior ópio budista seja quando o mestre se torna idolatrado. Caso isto ocorrer, na minha singela opinião, ele deve ser destruído. Todas as imagens de adoração devem ser destruídas. Quando a destruição se estender a todo ópio budista, então encerra-se o período da ilusão.

Inversamente ao ópio da religião, o budismo se presta a ser a libertação. Por isso, fazer zazen não se ganha nada. Faço tanto reverência a Buda quanto para o mendigo que mora nas ruas. Na verdade, aquele mendigo também é um Buda. Faço zazen nas salas do templo, quanto nas favelas, prostíbulos e prisões. Me parece que os que fazem zazen apenas em lugares tranqüilos como as montanhas são egoístas. Este zazen exclusivista, protótipo da pequena burguesia, é também ópio. Tudo aquilo que estimula a ilusão é ópio. É ópio também os que lêem as frases de efeito do budismo “auto-ajuda” e não fazem nada para transformar o mundo. É cínico praticar o budismo e continuar na inércia do “faço de conta que não vejo nada”. Lembrando do exemplo de Sidhartha, o Caminho requer renúncia. Renúncia inclusive da ópio das religiões.

O entendimento do Dharma é como estar navegando num único barco em que todos os outros também se abrigam. Lá se abrigam os cristãos e muçulmanos, judeus e palestinos, sábios e alienados, homens e homossexuais, cachorros e gatos. Caso o barco sofrer uma avaria, todos morrem. Há a necessidade de todos colaborarem para o bem de todos, assim, quem sabe, o barco não afunda. Pensar que apenas os gatos e os homossexuais vão afundar é uma grande ignorância.

Entendo o budismo como uma religião da libertação, que ao invés de ópio, deve lidar com a iluminação. Ajudar a todos, sem discriminação é um ato de iluminação.

http://sanghamargha.blogspot.com/2006/11/religio-verdadeira.html

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A passagem do herói pelo limiar do retorno

Publicado por adi em janeiro 18, 2010

Os dois mundos, divino e humano, só podem ser descritos como distintos entre si, diferentes como a vida e a morte, o dia e a noite. As aventuras do herói se passam fora da terra nossa conhecida, na região das trevas; ali ele completa sua jornada, ou apenas se perde para nós, aprisionado ou em perigo; e seu retorno é descrito como uma volta do além. Não obstante, e temos diante de nós uma grande chave da compreensão do mito e do símbolo, os dois reinos são, na realidade, um só e único reino. O reino dos deuses é uma dimensão esquecida do mundo que conhecemos. E a exploração dessa dimensão, voluntária ou relutante, resume todo o sentido da façanha do herói. Os valores e distinções que parecem importantes na vida real desaparecem com a terrificante assimilação do eu daquilo que antes não passava de alteridade. Tais como na história das ogresas canibais, o temor dessa perda da individualidade pessoal pode configurar-se, para as almas não qualificadas, como todo o ônus da experiência transcendental. Mas a alma do herói avança com ousadia, e descobre as bruxas convertidas em deusas e os dragões  em guardiães dos deuses.

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Infeliz Natal

Publicado por Sem em dezembro 25, 2009

Não chore, Papai Noel é bonzinho! Olha só como ele está assustado, tadinho…

Brincadeiras à parte, final de ano é uma época assustadora mesmo, os espíritos ficam sensíveis. Até parece que não é natural no ser humano trocar presentes, quer dizer, dar algo para e receber algo de, parece ser custoso demais. E não estou me referindo ao aspecto financeiro, que tem o seu custo, evidentemente, mas ao aspecto emocional que por essa época parece exorbitar e deixar os nervos da maioria à flor da pele.

Uma das coisas que talvez mais assustem no natal, eu penso, seja essa obrigatoriedade da troca de presentes. Oscilamos entre a dúvida e o temor ao nos tornarmos reféns daqueles com quem costumamos trocar presentes e lembranças. A questão é que se o outro não gostar do que lhe dou, como fico? ou como ficamos nós? e se eu posso ser avaliado pelo presente que dou, então, valho pelo meu presente? não viro e não viramos nós todos objetos nas mãos uns dos outros?

Pois é, dar é um problema, principalmente porque tenho que parar uns instantes para pensar nesse alguém a quem vou presentear, no quanto ele significa para mim. O outro me obriga então a sair o mínimo que seja de mim e a pensar nele. E bem sabemos que hoje nem todos se sentem confortáveis com o exercício da alteridade. É como diz o Birman, o professor Joel Birman, são tempos de narcisos cultivados.

Depois, se a questão gira em torno do quanto o outro vale para mim, é também por quanto eu sou avaliado por ele, o que transforma os nossos afetos em pesos e medidas que podem ser quantificados. Deixamos de ser seres numa relação para nos tornarmos frações intercambiáveis. Fico então naquela dúvida cruel, valerá o meu presente a amizade, o coleguismo ou o amor que lhe dedico? e o que eu recebo é o valor que o outro me dá? será oportuno ser generoso com fulano? adequado ser sovina com sicrano? mas quem é que pode determinar ou saber a exata medida e o valor de uma amizade?

Quem sabe o mais assustador do natal não seja nenhumas dessas problemáticas existenciais entre as generosidades e as sovinices por todos nós praticadas e nem entre os narcisismos e as coisificações estimulados pela sociedade de consumo, o verdadeiro problema está imbricado nisso tudo, mas, um pouco mais adiante, está na gratidão.

Sim, pois receber pode ser muito mais assustador do que dar. Receber é a admissão da minha vulnerabilidade e da minha insuficiência perante o outro, de que ele me supre em coisas que eu não tenho, que me faltam, que ele tem, e por isso me dá.

A revelação da nossa vulnerabilidade é mesmo uma das experiências psíquicas mais dolorosas de absorver. É sublime e libertadora também, mas tão assustadora que a maioria de nós evita defrontar-se com a crua realidade das nossas insuficiências e só na marra ou por força das circunstâncias é que haveremos de um dia com ela nos acertar.

O que mais assusta na gratidão, que por essa época do ano somos coagidos a externar, é que se ele tem e eu não tenho e por isso dele recebo, devo ainda agradecer ao filho da mãe que me desnuda nas minhas carências?

Assusta muito no natal ter de lidar com a gratidão. Não é lidar com aquilo que temos ou com aquilo que construímos e bem ou mal fizemos, assusta é o ter de lidar com aquilo que não temos. Sobretudo o que de graça recebemos.

Gratidão é algo tão fora de moda hoje que as pessoas mal conseguem disfarçar a ingratidão que sentem quando são presenteadas.

Não sei exatamente o que nos torna mais sensíveis por essa época de festejos de final de ano, se são as questões imbricadas na arte do dar e na gratidão do receber, mas, falando francamente, quem sabe seja simplesmente a instituição do Natal que esteja falida. Que o Natal instituído é que tenha perdido o seu fundamento mítico e se tornado apenas num feriado a mais no calendário a ser guardado, tão banal quanto o 7 de setembro, uma convenção social ressoando vazia de sentido à alma dos homens.

Na linguagem usada pelo povo daqui do Anoitan, significa que o Natal deixou de ser um deus para se transformar num arconte. Mas tudo isso está melhor dito e explicadinho nos registros dos arquivos do extinto Franco-Atirador, e muito bem sintetizado ali os motivos desse nosso mal-estar.

Então, é a instituição do Natal que está falida…

Nós sabemos que a instituição que instituiu o natal vem falindo há tempos, que o edifício da Igreja Católica Apostólica Romana vem sendo demolido, tijolo por tijolo, e em acelerado desmonte, desde o advento do iluminismo lá pelo siècle XVIII. E que bom que estejamos recuperando a visão do horizonte e dos poentes que antes estavam encobertos pelos claustros aterradores do pecado e da culpa. Mas é de se lamentar que junto estejam se perdendo também algumas capelinhas singelas e, por que não, alguns majestosos salões de amplo espaço acústico construídos com o sangue de Eros correndo na veia dos homens. É uma pena, porque se algum dia o espírito de Deus passou pela Terra, Ele passou por esses lugares. Pelo menos eu lamento que o adão de Michelangelo seja hoje apenas um afresco na parede, verdade que um trabalho ainda reconhecido, mas apenas isso, um belo afresco. Lamento que o vitral de Notre Dame seja hoje tão somente vidros coloridos dispostos a caracterizarem uma época e um estilo. Lamento que o espaço para o silêncio em igrejinhas e igrejões esteja hoje sendo encoberto, não pelo barulho dos sinos, mas pelo burburinho ensurdecedor do trânsito de todas as cidades do mundo. Realmente, com o mal que se perde, o bem também está se perdendo, e tudo vai se perdendo, como o natal está se perdendo.

É a minha tristeza, mas o meu lamento não é pela época, pois bem lá no meu íntimo não consigo evitar de ver nessa época a mais feliz do ano. De algum modo arranjo sempre um motivo para me alegrar com alguma coisa e creio que independente do que seja o costume e bacana de se dizer por aí pelos círculos que frequentamos, vou morrer acreditando no Natal.

Falando francamente, não há nada de errado com o Natal!

O espírito do Natal nada mais é do que a celebração do espírito do Puer. A renovação da vida. E o que pode haver de errado com o Puer? nada, é claro, apenas se o espírito for usado para fins de controle de uns seres sobre outros, os problemas começam…

E é o que acontece com toda instituição ao longo de sua existência, tese também sustentada pelo sociólogo e psicanalista Francesco Alberoni, bastante detalhada e melhor vista em Gênese, que é o livro síntese da obra deste pensador italiano.

O Natal perdeu, enfim, o seu sentido religioso/arquetípico/mitológico de revificação do espírito para outros objetivos que de espirituais não têm nada, quer dizer, nada tem a ver com o Puer.

O que existe de mais aterrador no natal, para mim, é essa institucionalidade de ser feliz a qualquer custo. Institucionalidade é bem um palavrão, que aqui eu emprego como uma espécie de xingamento mesmo. Essa felicidade a qualquer preço é simplesmente o maior ladrão da nossa alegria de viver. Ser feliz na marra é, no fundo, a própria imagem da infelicidade. E dá-lhe estéticas niveladoras e prozacs que nos deixam todos iguaizinhos e pasteurizados, sem vida!, daí para a coisificação dos seres é um pulo e para o consumo desenfreado só mais um passo.

A obrigação de ser assim ou assado é o que mata com o espírito do Natal, para falar a verdade, acaba com qualquer época do ano…

Mas voltando ao assunto da pauta, não vejo nada de errado em se querer celebrar o natal junto de quem se ame, que supostamente é ou deveria ser a família que temos. Apenas como está cada vez mais raro gostar da família que temos, então, a perspectiva de passar algumas horas na mais pura representação, trocando presentes que não se pensou e nem se quer, comendo peru industrializado e sem gosto, sorrindo amarelos sorrisos para gente que nada tem a ver conosco, nesse caso, o natal é mesmo a própria desintegração familiar, desastre total.

Não sei quantas pessoas percebem o quanto está ficando cada vez mais fora de uso festejar o natal. Quer dizer, festejar mesmo, em meio à família e aos amigos queridos, não representar festejos de uma euforia vazia e que apenas alimentam o oco insaciável do consumo. Mas festejar de verdade, estando junto à família como se costumava fazer naqueles tempos passados em que a família ainda existia. Como eu vivi  por aquelas priscas eras, atualmente extintas, posso afirmar que os natais eram tão infelizes quantos os de hoje, mas pelo menos éramos infelizes juntos, quando supostamente estávamos ao lado de quem amávamos, gente que podíamos contar para o melhor e principalmente para o pior, e eu acho que isso teve e terá sempre algum valor.

No estágio civilizatório em que nos encontramos, não sei quantos percebem isso, mas está se tornando cada vez mais constrangedor desejar um simples feliz natal a alguém, sem o risco de ser considerado de outro planeta só por sustentar tal desejo. Quer dizer, desejo sincero de felicidade ao outro, de uma felicidade dada de graça, e não da felicidade a qualquer custo, que como do fundo do coração sabemos, custa o olho da cara.

Deve ser embaraçoso desejar boas festas hoje porque vivemos num tempo de muitos progressos e de avanços científicos e que, afinal, deixamos para trás toda essa baboseira de arcadismos de trocas e de dependências mútuas, todas essas coisas obsoletas que largamos ao avançar num tempo de pleno gozo de nossa independência e liberdade. Se já não estamos lá nessa maravilhosa wonderland, estamos a caminho… Não é isso o que a sociedade do controle nos exorta a pensar e acreditar, de que temos ou poderemos ter um dia total gerência sobre nossas vidas?

Mas vá lá, não sei se ainda dá tempo, eu comecei a escrever esse texto na noite de 23 de dezembro e, no espaço que deu, ficou pronto só agora, quase 4 horas da tarde de 25 de dezembro. Ainda é Natal! Pois, apesar disso, e do constrangimento que sinto e daquele que possa causar, desejo a todos os amigos leitores e escritores do Anoitan um Feliz Natal!

Enviado em Amor, Anarquismo e Política, Arquétipos, Mito, Religião | Etiquetado: , , | 9 Comentários »

 
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