Anoitan

“Se sempre há um amanhã, sempre há um anoitã.”

Arquivo da categoria ‘Mito’

Entre esferas a caminho do Portal

Publicado por adi em fevereiro 16, 2012

Para quem tem acompanhado os textos do Anoitan, esse post aqui é como uma sequência do post sobre A união com o anjo em Tiphareth. Sendo também um assunto muito rico e pra não ficar muito extenso, achei melhor dividir em duas partes ou mais, já que serão assuntos relacionados entre si.

Recapitulando: até Tiphareth, o sujeito lidava com aspectos do seu próprio inconsciente pessoal, que na verdade se trata de aspectos que um dia já foram conscientes, mas que rejeitados e não aceitos pelo eu consciente foram relegados ao inconsciente novamente. Se faz necessário antes do conhecimento e conversação com o SAGA (Anjo Guardião) a aceitação desses aspectos do inconsciente pessoal.

Depois da visão e conversação do Anjo, começa uma nova empreitada na psiquê do indivíduo: ele vai lidar com aspectos do inconsciente coletivo (não confundir com consciente coletivo) – Jung denomina como contato com o animus-anima, porque é este o arquétipo que simboliza aspectos do inconsciente coletivo. Começa a desenvolver e a emergir do inconsciente o aspecto dos opostos, das polaridades, mas primeiro como sendo o aspecto sombrio do inconsciente coletivo em contra posição a luz de Tiphareth, primeiro como sendo o aspecto escuro e maléfico da anima-animus. Antes da anima-animus se tornar o amante, mesmo como psicopompo e guia, ele lhe guiará a conhecer os aspectos sombrios da psiquê objetiva.

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O guardião do Portal

Publicado por adi em fevereiro 10, 2012

Iehhh!!!   o entusiasmo voltou e o Sol volta a brilhar, rs!! Está na forma um post que vai ficar bem bacana (na minha modesta opinião, :) ).

Só uma palinha sobre o assunto: ” Os primeiros criadores de mitos, incapacitados de compreender adequadamente as forças do Não-Ser, lançaram-nas em um falso molde dos quais essas emergiram como poderes do “mal”. Em consequência, os mitos e lendas estão vivos com demônios, monstros, vampiros, íncubos, súcubos, e uma hoste de entidades malignas dos quais são símbolos que ocultam glifos inomináveis, apavorantes e – para o homem dos primórdios - conceitos inconscientes de Nada, Espaço Interior, Anti-matéria, e o horror final da ausência absoluta”.

Retirado daqui.

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O proibido de fato – por Elielson

Publicado por adi em novembro 29, 2011

Existiu o modelo perfeito de felicidade, um Paraíso, que só é encontrado em crianças livres, livres para ir e vir e livre de idéias adultas. Essa foi a primeira condição da vida humana, quando a inconsciência e a consciência eram uma só.

A verdade por trás dos mitos derruba a interpretação livre e derruba o literalismo. Há mesmo uma fluência em que as informações formam um estado interpretativo infalível, essa interpretação está ligada a moral e as ataduras que envolvem a prática de tal moral, e a moral que se segue após atos imorais, que não libertam a vida para uma imoralidade inconsequente, nunca.

Primeiro ato imoral: Sexo. Vão dizer que não, que sexo é bom, dá prazer e não mata, não desrespeita mandamentos, e assim se justifica que não é de todo um mal. Mas quem disse que o sexo é proibido por ser um mal que foi praticado? A proibição visa consequências de atos, não o ato em si, então a partir do sexo como pedra fundamental do pecado, podemos analisar por suas consequências a ligação entre o ato em si e o mal do ato em si.

 

 

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Beijos místicos

Publicado por adi em outubro 13, 2011

 

Evangelho de Felipe: “A graça chega a ele da boca, do lugar de onde chega o Logos. A pessoa deve ser nutrida da boca para se tornar perfeita. Por isso os perfeitos são concebidos e nascem por meio de um beijo. Por esta razão nós também nos beijamos uns aos outros. Somos concebidos da graça que nos é comum.”

 

 

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O tolo e a iluminação – Eckhart Tolle

Publicado por adi em agosto 9, 2011

Recebo uma certa quantidade de e-mails, dentre eles algumas jóias raras, um verdadeiro “presente”,  e claro não é só pra mim, mas pra ser compartilhado, e nada melhor do que trazer aqui pro blog. Não é nenhuma novidade eu sei, mas é bom a gente parar um pouquinho com a rotina, poder observar nossas próprias reações físicas, ou a rua, as nuvens passando, não importa, importa saber que atitudes tão simples podem ser transformadoras se estivermos ali de todo.

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O Sol do Natal, o Sol de nossas vidas

Publicado por adi em dezembro 21, 2010

Mais um final de ano está chegando e estamos muito próximos do Natal, onde a maioria dos cristãos irão comemorar o nascimento de Cristo. Muitas pessoas já sabem que a data de 25 de dezembro não é de fato o dia de nascimento do Jesus histórico, mas a escolha desse dia não por acaso coincide com as festividades pagãs, onde os romanos celebravam o renascimento do Deus Solar Mitra, após os solstício de inverno no hemisfério norte.

Nos dias de hoje, as pessoas celebram essa data como uma tradição que já perdeu há muito o real sentido espiritual. O ritual religioso celebrado nas Igrejas, do mesmo modo já perdeu o seu poder de atuação no indivíduo. A grande maioria comemora o nascimento do Cristo, o filho de Deus que foi enviado para nos salvar, um ser de luz, respeitado, mas muito distante de todos nós. Muitos ainda estão esperando a encarnação do filho de Deus, a vinda do Messias como está descrito nas escrituras, e não sabem que o nascimento de Cristo como descrito é somente o símbolo de um evento que só pode acontecer no indivíduo.

Mitra pertence às mitologias persa, indiana e romana. Representava na Índia e na Pérsia a luz do Deus Solar, o bem e a libertação da matéria e era chamado de “Sol Vencedor”. Seu culto era celebrado em grutas sagradas e estava associado à uma existência futura e espiritual completamente libertada da matéria, onde o principal acontecimento era o sacrifício de um touro, de cujo o sangue brotava a vida, propiciando a imortalidade. Os romanos comemoravam na madrugada de 24 de dezembro o “Nascimento do  Invicto”, ou o nascimento do menino Mitra que estava em relação ao renascer do sol após o solstício de inverno, representando o ciclo de morte e renascimento ou renovação da vida, que a primeira vista estava relacionado com as festividades do ciclo agrário. Leia o resto deste post »

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A construção do Templo do Rei Salomão

Publicado por adi em abril 12, 2010

O objetivo de praticamente todas as escolas místicas e esotéricas é alcançar ou realizar primeiro a conversação com o Sagrado Anjo Guardião e depois a união total dos opostos dentro do ser. Esses ensinamentos sempre foram muito velados e a prática destinada a uns poucos escolhidos.

Há uma lenda maçonica sobre o construtor do Templo do Rei Salomão, Hiran Abiff, grande artífice, artesão capaz de manipular os elementos através do fogo. Vou colocar aqui apenas uma parte dessa lenda, resumidamente, abordando somente sobre a construção do templo. Essa lenda começa contando a história da criação do mundo, da divisão dos opostos, ou dos filhos de Caim (fogo/Sol/Lúcifer) e de seus contrários filhos de Abel (Seth/água/Lua/Jeová). Sempre o processo de criação é descrito a partir dessa separação de opostos. Conta  a lenda, de forma simbólica e alegórica que dos filhos de Caim originaram as artes e ofícios voltados para o material e concreto, e dos descendentes de Seth voltados para a sabedoria divina, para o espiritual e  o sacerdócio. Hiran Abiff, também chamado o filho da viúva, era da linhagem de Caim, sendo Caim órfão de pai (Lúcifer), seus descendentes eram conhecidos como o filho da viúva e, sua linhagem do fogo, lhes concedia  grande habilidade na arte de manipular os metais e  construir. Por isso o Rei Salomão (descendente de Seth), quando da construção do Templo, chamou Hiran Abiff pra realizar essa tarefa. Foi uma das primeiras tentativas de união, já que uniriam forças durante o período da construção do Templo.

O templo tinha uma planta muito similar a tenda ou Tabernáculo que antes servia como centro de adoração ao Deus de Israel, com a diferença nas dimensões muito maiores. Dentro do templo, no Santo dos Santos seria guardada a Arca da Aliança.  Também Hiran Abiff  fundiu duas colunas de bronze e pôs estas colunas uma em cada lado do pórtico do templo, a da direita chamou-a Jaquim e a da esquerda Boaz. Segundo a lenda, quando Hiran terminou o templo, começou a fundir os diferentes vasos necessários ao serviço, de acordo com os desenhos de Salomão, agente de Jehová.  Mas a obra prima de Hiran, seria o “Mar Fundido”, uma espécie de lavabo. Pela habilidade acumulada dos filhos de Caim, um edifício foi erguido onde Jeová ocultou-se “atrás do véu” e comunicou-se unicamente com seus sacerdotes escolhidos, os filhos de Seth. O objetivo de Hiran era através do Mar Fundido “rasgar o véu” e abrir caminho para Deus a todo aquele que desejasse. Leia o resto deste post »

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A passagem do herói pelo limiar do retorno

Publicado por adi em janeiro 18, 2010

Os dois mundos, divino e humano, só podem ser descritos como distintos entre si, diferentes como a vida e a morte, o dia e a noite. As aventuras do herói se passam fora da terra nossa conhecida, na região das trevas; ali ele completa sua jornada, ou apenas se perde para nós, aprisionado ou em perigo; e seu retorno é descrito como uma volta do além. Não obstante, e temos diante de nós uma grande chave da compreensão do mito e do símbolo, os dois reinos são, na realidade, um só e único reino. O reino dos deuses é uma dimensão esquecida do mundo que conhecemos. E a exploração dessa dimensão, voluntária ou relutante, resume todo o sentido da façanha do herói. Os valores e distinções que parecem importantes na vida real desaparecem com a terrificante assimilação do eu daquilo que antes não passava de alteridade. Tais como na história das ogresas canibais, o temor dessa perda da individualidade pessoal pode configurar-se, para as almas não qualificadas, como todo o ônus da experiência transcendental. Mas a alma do herói avança com ousadia, e descobre as bruxas convertidas em deusas e os dragões  em guardiães dos deuses.

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Avatar – o filme e seu simbolismo

Publicado por adi em dezembro 30, 2009

Muitas pessoas que já assistiram ao filme, ou que ainda não assistiram tem acompanhado as várias sinopses ou críticas sobre o filme via internet, algumas bem favoráveis, outras nem tanto. Como gostei muito do filme, e recomendo a todos assistirem, achei interessante também escrever uma resenha sobre ele aqui no Anoitan.

Falar sobre as imagens de Avatar é pouco, falar da tecnologia utilizada também, porque Avatar além de ser um deslumbre visual, é ainda mais, é ainda além do próprio visual, este que já é fantástico por si só.

James Cameron ao conceber o filme totalmente inovador, se utilizou de elementos arquetípicos pra deixar uma mensagem bem atual penetrar no consciente das pessoas. Além da mensagem espiritual, há um forte apelo ecológico que nos faz repensar nossas atitudes como humanos que somos.

Há muitas resenhas sobre Avatar na net, a maioria falando do aspecto 3D do filme e de toda a tecnologia usada; sim uma inovação que proporciona uma experiência única, onde 60% do filme foi  feito  em computação gráfica, portanto, vou comentar somente o aspecto mítico, simbólico e arquetípico, pois é esse que junto com o rico visual, mexe com a gente, e faz a gente sair de lá com a sensação de quase uma experiência mística.

E claro, é uma experiência visual onde a imagem e a tecnologia em 3D, dão vida a cada detalhe, e Cameron torna Pandora real; lá tudo é real aos olhos, desde o povo Na’vi, a fauna e a flora, tudo é um espetáculo de vida e beleza.

Sim, há muitos paralelos entre outros filmes como Matrix, Senhor dos Anéis, Star Wars, Dança com Lobos, o Último Samurai, etc; porque Cameron conta a jornada do herói, mas o diretor narra de uma maneira totalmente inovada, como o rejuvenescimento do arquétipo, e com certeza o arquétipo renovado desperta algo dentro da gente.

Avatar conta a trajetória de Jake Sully, um soldado da marinha que aceita o desafio de ocupar o lugar de seu irmão gêmeo (morto), no programa Avatar. O Ano é 2154 e se passa numa lua que se chama Pandora, que orbita o planeta Polyphemus (ficção) no sistema de Alpha Centauri; detalhe, ele é paraplégico. Em Pandora os humanos estabeleceram pequena base militar e cientifica com o intento de obter um valioso minério Unobtanium, rica fonte de energia. Como Pandora é um mundo com atmosfera imprópria para os humanos, foi criado corpos chamados Avatares, mistura de DNA humano com DNA dos nativos Na’vis, com o objetivo de, por um lado, amistosamente retirar os nativos de sua área, ou, por outro lado, se misturar e aprender os costumes dos nativos e verificar seu ponto fraco, visto que o território dos nativos se localiza acima da maior reserva do mineral precioso.

Até aqui, tudo isso pode ser encontrado nas várias sinopses sobre o filme na net; e a partir deste ponto, contém muitos  spoilers (totalmente), portanto, melhor assistir ao filme primeiro, pois recomendo a leitura somente a quem assistiu e quer verificar sua simbologia. Leia o resto deste post »

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Infeliz Natal

Publicado por Sem em dezembro 25, 2009

Não chore, Papai Noel é bonzinho! Olha só como ele está assustado, tadinho…

Brincadeiras à parte, final de ano é uma época assustadora mesmo, os espíritos ficam sensíveis. Até parece que não é natural no ser humano trocar presentes, quer dizer, dar algo para e receber algo de, parece ser custoso demais. E não estou me referindo ao aspecto financeiro, que tem o seu custo, evidentemente, mas ao aspecto emocional que por essa época parece exorbitar e deixar os nervos da maioria à flor da pele.

Uma das coisas que talvez mais assustem no natal, eu penso, seja essa obrigatoriedade da troca de presentes. Oscilamos entre a dúvida e o temor ao nos tornarmos reféns daqueles com quem costumamos trocar presentes e lembranças. A questão é que se o outro não gostar do que lhe dou, como fico? ou como ficamos nós? e se eu posso ser avaliado pelo presente que dou, então, valho pelo meu presente? não viro e não viramos nós todos objetos nas mãos uns dos outros?

Pois é, dar é um problema, principalmente porque tenho que parar uns instantes para pensar nesse alguém a quem vou presentear, no quanto ele significa para mim. O outro me obriga então a sair o mínimo que seja de mim e a pensar nele. E bem sabemos que hoje nem todos se sentem confortáveis com o exercício da alteridade. É como diz o Birman, o professor Joel Birman, são tempos de narcisos cultivados.

Depois, se a questão gira em torno do quanto o outro vale para mim, é também por quanto eu sou avaliado por ele, o que transforma os nossos afetos em pesos e medidas que podem ser quantificados. Deixamos de ser seres numa relação para nos tornarmos frações intercambiáveis. Fico então naquela dúvida cruel, valerá o meu presente a amizade, o coleguismo ou o amor que lhe dedico? e o que eu recebo é o valor que o outro me dá? será oportuno ser generoso com fulano? adequado ser sovina com sicrano? mas quem é que pode determinar ou saber a exata medida e o valor de uma amizade?

Quem sabe o mais assustador do natal não seja nenhumas dessas problemáticas existenciais entre as generosidades e as sovinices por todos nós praticadas e nem entre os narcisismos e as coisificações estimulados pela sociedade de consumo, o verdadeiro problema está imbricado nisso tudo, mas, um pouco mais adiante, está na gratidão.

Sim, pois receber pode ser muito mais assustador do que dar. Receber é a admissão da minha vulnerabilidade e da minha insuficiência perante o outro, de que ele me supre em coisas que eu não tenho, que me faltam, que ele tem, e por isso me dá.

A revelação da nossa vulnerabilidade é mesmo uma das experiências psíquicas mais dolorosas de absorver. É sublime e libertadora também, mas tão assustadora que a maioria de nós evita defrontar-se com a crua realidade das nossas insuficiências e só na marra ou por força das circunstâncias é que haveremos de um dia com ela nos acertar.

O que mais assusta na gratidão, que por essa época do ano somos coagidos a externar, é que se ele tem e eu não tenho e por isso dele recebo, devo ainda agradecer ao filho da mãe que me desnuda nas minhas carências?

Assusta muito no natal ter de lidar com a gratidão. Não é lidar com aquilo que temos ou com aquilo que construímos e bem ou mal fizemos, assusta é o ter de lidar com aquilo que não temos. Sobretudo o que de graça recebemos.

Gratidão é algo tão fora de moda hoje que as pessoas mal conseguem disfarçar a ingratidão que sentem quando são presenteadas.

Não sei exatamente o que nos torna mais sensíveis por essa época de festejos de final de ano, se são as questões imbricadas na arte do dar e na gratidão do receber, mas, falando francamente, quem sabe seja simplesmente a instituição do Natal que esteja falida. Que o Natal instituído é que tenha perdido o seu fundamento mítico e se tornado apenas num feriado a mais no calendário a ser guardado, tão banal quanto o 7 de setembro, uma convenção social ressoando vazia de sentido à alma dos homens.

Na linguagem usada pelo povo daqui do Anoitan, significa que o Natal deixou de ser um deus para se transformar num arconte. Mas tudo isso está melhor dito e explicadinho nos registros dos arquivos do extinto Franco-Atirador, e muito bem sintetizado ali os motivos desse nosso mal-estar.

Então, é a instituição do Natal que está falida…

Nós sabemos que a instituição que instituiu o natal vem falindo há tempos, que o edifício da Igreja Católica Apostólica Romana vem sendo demolido, tijolo por tijolo, e em acelerado desmonte, desde o advento do iluminismo lá pelo siècle XVIII. E que bom que estejamos recuperando a visão do horizonte e dos poentes que antes estavam encobertos pelos claustros aterradores do pecado e da culpa. Mas é de se lamentar que junto estejam se perdendo também algumas capelinhas singelas e, por que não, alguns majestosos salões de amplo espaço acústico construídos com o sangue de Eros correndo na veia dos homens. É uma pena, porque se algum dia o espírito de Deus passou pela Terra, Ele passou por esses lugares. Pelo menos eu lamento que o adão de Michelangelo seja hoje apenas um afresco na parede, verdade que um trabalho ainda reconhecido, mas apenas isso, um belo afresco. Lamento que o vitral de Notre Dame seja hoje tão somente vidros coloridos dispostos a caracterizarem uma época e um estilo. Lamento que o espaço para o silêncio em igrejinhas e igrejões esteja hoje sendo encoberto, não pelo barulho dos sinos, mas pelo burburinho ensurdecedor do trânsito de todas as cidades do mundo. Realmente, com o mal que se perde, o bem também está se perdendo, e tudo vai se perdendo, como o natal está se perdendo.

É a minha tristeza, mas o meu lamento não é pela época, pois bem lá no meu íntimo não consigo evitar de ver nessa época a mais feliz do ano. De algum modo arranjo sempre um motivo para me alegrar com alguma coisa e creio que independente do que seja o costume e bacana de se dizer por aí pelos círculos que frequentamos, vou morrer acreditando no Natal.

Falando francamente, não há nada de errado com o Natal!

O espírito do Natal nada mais é do que a celebração do espírito do Puer. A renovação da vida. E o que pode haver de errado com o Puer? nada, é claro, apenas se o espírito for usado para fins de controle de uns seres sobre outros, os problemas começam…

E é o que acontece com toda instituição ao longo de sua existência, tese também sustentada pelo sociólogo e psicanalista Francesco Alberoni, bastante detalhada e melhor vista em Gênese, que é o livro síntese da obra deste pensador italiano.

O Natal perdeu, enfim, o seu sentido religioso/arquetípico/mitológico de revificação do espírito para outros objetivos que de espirituais não têm nada, quer dizer, nada tem a ver com o Puer.

O que existe de mais aterrador no natal, para mim, é essa institucionalidade de ser feliz a qualquer custo. Institucionalidade é bem um palavrão, que aqui eu emprego como uma espécie de xingamento mesmo. Essa felicidade a qualquer preço é simplesmente o maior ladrão da nossa alegria de viver. Ser feliz na marra é, no fundo, a própria imagem da infelicidade. E dá-lhe estéticas niveladoras e prozacs que nos deixam todos iguaizinhos e pasteurizados, sem vida!, daí para a coisificação dos seres é um pulo e para o consumo desenfreado só mais um passo.

A obrigação de ser assim ou assado é o que mata com o espírito do Natal, para falar a verdade, acaba com qualquer época do ano…

Mas voltando ao assunto da pauta, não vejo nada de errado em se querer celebrar o natal junto de quem se ame, que supostamente é ou deveria ser a família que temos. Apenas como está cada vez mais raro gostar da família que temos, então, a perspectiva de passar algumas horas na mais pura representação, trocando presentes que não se pensou e nem se quer, comendo peru industrializado e sem gosto, sorrindo amarelos sorrisos para gente que nada tem a ver conosco, nesse caso, o natal é mesmo a própria desintegração familiar, desastre total.

Não sei quantas pessoas percebem o quanto está ficando cada vez mais fora de uso festejar o natal. Quer dizer, festejar mesmo, em meio à família e aos amigos queridos, não representar festejos de uma euforia vazia e que apenas alimentam o oco insaciável do consumo. Mas festejar de verdade, estando junto à família como se costumava fazer naqueles tempos passados em que a família ainda existia. Como eu vivi  por aquelas priscas eras, atualmente extintas, posso afirmar que os natais eram tão infelizes quantos os de hoje, mas pelo menos éramos infelizes juntos, quando supostamente estávamos ao lado de quem amávamos, gente que podíamos contar para o melhor e principalmente para o pior, e eu acho que isso teve e terá sempre algum valor.

No estágio civilizatório em que nos encontramos, não sei quantos percebem isso, mas está se tornando cada vez mais constrangedor desejar um simples feliz natal a alguém, sem o risco de ser considerado de outro planeta só por sustentar tal desejo. Quer dizer, desejo sincero de felicidade ao outro, de uma felicidade dada de graça, e não da felicidade a qualquer custo, que como do fundo do coração sabemos, custa o olho da cara.

Deve ser embaraçoso desejar boas festas hoje porque vivemos num tempo de muitos progressos e de avanços científicos e que, afinal, deixamos para trás toda essa baboseira de arcadismos de trocas e de dependências mútuas, todas essas coisas obsoletas que largamos ao avançar num tempo de pleno gozo de nossa independência e liberdade. Se já não estamos lá nessa maravilhosa wonderland, estamos a caminho… Não é isso o que a sociedade do controle nos exorta a pensar e acreditar, de que temos ou poderemos ter um dia total gerência sobre nossas vidas?

Mas vá lá, não sei se ainda dá tempo, eu comecei a escrever esse texto na noite de 23 de dezembro e, no espaço que deu, ficou pronto só agora, quase 4 horas da tarde de 25 de dezembro. Ainda é Natal! Pois, apesar disso, e do constrangimento que sinto e daquele que possa causar, desejo a todos os amigos leitores e escritores do Anoitan um Feliz Natal!

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