
Não chore, Papai Noel é bonzinho! Olha só como ele está assustado, tadinho…
Brincadeiras à parte, final de ano é uma época assustadora mesmo, os espíritos ficam sensíveis. Até parece que não é natural no ser humano trocar presentes, quer dizer, dar algo para e receber algo de, parece ser custoso demais. E não estou me referindo ao aspecto financeiro, que tem o seu custo, evidentemente, mas ao aspecto emocional que por essa época parece exorbitar e deixar os nervos da maioria à flor da pele.
Uma das coisas que talvez mais assustem no natal, eu penso, seja essa obrigatoriedade da troca de presentes. Oscilamos entre a dúvida e o temor ao nos tornarmos reféns daqueles com quem costumamos trocar presentes e lembranças. A questão é que se o outro não gostar do que lhe dou, como fico? ou como ficamos nós? e se eu posso ser avaliado pelo presente que dou, então, valho pelo meu presente? não viro e não viramos nós todos objetos nas mãos uns dos outros?
Pois é, dar é um problema, principalmente porque tenho que parar uns instantes para pensar nesse alguém a quem vou presentear, no quanto ele significa para mim. O outro me obriga então a sair o mínimo que seja de mim e a pensar nele. E bem sabemos que hoje nem todos se sentem confortáveis com o exercício da alteridade. É como diz o Birman, o professor Joel Birman, são tempos de narcisos cultivados.
Depois, se a questão gira em torno do quanto o outro vale para mim, é também por quanto eu sou avaliado por ele, o que transforma os nossos afetos em pesos e medidas que podem ser quantificados. Deixamos de ser seres numa relação para nos tornarmos frações intercambiáveis. Fico então naquela dúvida cruel, valerá o meu presente a amizade, o coleguismo ou o amor que lhe dedico? e o que eu recebo é o valor que o outro me dá? será oportuno ser generoso com fulano? adequado ser sovina com sicrano? mas quem é que pode determinar ou saber a exata medida e o valor de uma amizade?
Quem sabe o mais assustador do natal não seja nenhumas dessas problemáticas existenciais entre as generosidades e as sovinices por todos nós praticadas e nem entre os narcisismos e as coisificações estimulados pela sociedade de consumo, o verdadeiro problema está imbricado nisso tudo, mas, um pouco mais adiante, está na gratidão.
Sim, pois receber pode ser muito mais assustador do que dar. Receber é a admissão da minha vulnerabilidade e da minha insuficiência perante o outro, de que ele me supre em coisas que eu não tenho, que me faltam, que ele tem, e por isso me dá.
A revelação da nossa vulnerabilidade é mesmo uma das experiências psíquicas mais dolorosas de absorver. É sublime e libertadora também, mas tão assustadora que a maioria de nós evita defrontar-se com a crua realidade das nossas insuficiências e só na marra ou por força das circunstâncias é que haveremos de um dia com ela nos acertar.
O que mais assusta na gratidão, que por essa época do ano somos coagidos a externar, é que se ele tem e eu não tenho e por isso dele recebo, devo ainda agradecer ao filho da mãe que me desnuda nas minhas carências?
Assusta muito no natal ter de lidar com a gratidão. Não é lidar com aquilo que temos ou com aquilo que construímos e bem ou mal fizemos, assusta é o ter de lidar com aquilo que não temos. Sobretudo o que de graça recebemos.
Gratidão é algo tão fora de moda hoje que as pessoas mal conseguem disfarçar a ingratidão que sentem quando são presenteadas.
Não sei exatamente o que nos torna mais sensíveis por essa época de festejos de final de ano, se são as questões imbricadas na arte do dar e na gratidão do receber, mas, falando francamente, quem sabe seja simplesmente a instituição do Natal que esteja falida. Que o Natal instituído é que tenha perdido o seu fundamento mítico e se tornado apenas num feriado a mais no calendário a ser guardado, tão banal quanto o 7 de setembro, uma convenção social ressoando vazia de sentido à alma dos homens.
Na linguagem usada pelo povo daqui do Anoitan, significa que o Natal deixou de ser um deus para se transformar num arconte. Mas tudo isso está melhor dito e explicadinho nos registros dos arquivos do extinto Franco-Atirador, e muito bem sintetizado ali os motivos desse nosso mal-estar.
Então, é a instituição do Natal que está falida…
Nós sabemos que a instituição que instituiu o natal vem falindo há tempos, que o edifício da Igreja Católica Apostólica Romana vem sendo demolido, tijolo por tijolo, e em acelerado desmonte, desde o advento do iluminismo lá pelo siècle XVIII. E que bom que estejamos recuperando a visão do horizonte e dos poentes que antes estavam encobertos pelos claustros aterradores do pecado e da culpa. Mas é de se lamentar que junto estejam se perdendo também algumas capelinhas singelas e, por que não, alguns majestosos salões de amplo espaço acústico construídos com o sangue de Eros correndo na veia dos homens. É uma pena, porque se algum dia o espírito de Deus passou pela Terra, Ele passou por esses lugares. Pelo menos eu lamento que o adão de Michelangelo seja hoje apenas um afresco na parede, verdade que um trabalho ainda reconhecido, mas apenas isso, um belo afresco. Lamento que o vitral de Notre Dame seja hoje tão somente vidros coloridos dispostos a caracterizarem uma época e um estilo. Lamento que o espaço para o silêncio em igrejinhas e igrejões esteja hoje sendo encoberto, não pelo barulho dos sinos, mas pelo burburinho ensurdecedor do trânsito de todas as cidades do mundo. Realmente, com o mal que se perde, o bem também está se perdendo, e tudo vai se perdendo, como o natal está se perdendo.
É a minha tristeza, mas o meu lamento não é pela época, pois bem lá no meu íntimo não consigo evitar de ver nessa época a mais feliz do ano. De algum modo arranjo sempre um motivo para me alegrar com alguma coisa e creio que independente do que seja o costume e bacana de se dizer por aí pelos círculos que frequentamos, vou morrer acreditando no Natal.
Falando francamente, não há nada de errado com o Natal!
O espírito do Natal nada mais é do que a celebração do espírito do Puer. A renovação da vida. E o que pode haver de errado com o Puer? nada, é claro, apenas se o espírito for usado para fins de controle de uns seres sobre outros, os problemas começam…
E é o que acontece com toda instituição ao longo de sua existência, tese também sustentada pelo sociólogo e psicanalista Francesco Alberoni, bastante detalhada e melhor vista em Gênese, que é o livro síntese da obra deste pensador italiano.
O Natal perdeu, enfim, o seu sentido religioso/arquetípico/mitológico de revificação do espírito para outros objetivos que de espirituais não têm nada, quer dizer, nada tem a ver com o Puer.
O que existe de mais aterrador no natal, para mim, é essa institucionalidade de ser feliz a qualquer custo. Institucionalidade é bem um palavrão, que aqui eu emprego como uma espécie de xingamento mesmo. Essa felicidade a qualquer preço é simplesmente o maior ladrão da nossa alegria de viver. Ser feliz na marra é, no fundo, a própria imagem da infelicidade. E dá-lhe estéticas niveladoras e prozacs que nos deixam todos iguaizinhos e pasteurizados, sem vida!, daí para a coisificação dos seres é um pulo e para o consumo desenfreado só mais um passo.
A obrigação de ser assim ou assado é o que mata com o espírito do Natal, para falar a verdade, acaba com qualquer época do ano…
Mas voltando ao assunto da pauta, não vejo nada de errado em se querer celebrar o natal junto de quem se ame, que supostamente é ou deveria ser a família que temos. Apenas como está cada vez mais raro gostar da família que temos, então, a perspectiva de passar algumas horas na mais pura representação, trocando presentes que não se pensou e nem se quer, comendo peru industrializado e sem gosto, sorrindo amarelos sorrisos para gente que nada tem a ver conosco, nesse caso, o natal é mesmo a própria desintegração familiar, desastre total.
Não sei quantas pessoas percebem o quanto está ficando cada vez mais fora de uso festejar o natal. Quer dizer, festejar mesmo, em meio à família e aos amigos queridos, não representar festejos de uma euforia vazia e que apenas alimentam o oco insaciável do consumo. Mas festejar de verdade, estando junto à família como se costumava fazer naqueles tempos passados em que a família ainda existia. Como eu vivi por aquelas priscas eras, atualmente extintas, posso afirmar que os natais eram tão infelizes quantos os de hoje, mas pelo menos éramos infelizes juntos, quando supostamente estávamos ao lado de quem amávamos, gente que podíamos contar para o melhor e principalmente para o pior, e eu acho que isso teve e terá sempre algum valor.
No estágio civilizatório em que nos encontramos, não sei quantos percebem isso, mas está se tornando cada vez mais constrangedor desejar um simples feliz natal a alguém, sem o risco de ser considerado de outro planeta só por sustentar tal desejo. Quer dizer, desejo sincero de felicidade ao outro, de uma felicidade dada de graça, e não da felicidade a qualquer custo, que como do fundo do coração sabemos, custa o olho da cara.
Deve ser embaraçoso desejar boas festas hoje porque vivemos num tempo de muitos progressos e de avanços científicos e que, afinal, deixamos para trás toda essa baboseira de arcadismos de trocas e de dependências mútuas, todas essas coisas obsoletas que largamos ao avançar num tempo de pleno gozo de nossa independência e liberdade. Se já não estamos lá nessa maravilhosa wonderland, estamos a caminho… Não é isso o que a sociedade do controle nos exorta a pensar e acreditar, de que temos ou poderemos ter um dia total gerência sobre nossas vidas?
Mas vá lá, não sei se ainda dá tempo, eu comecei a escrever esse texto na noite de 23 de dezembro e, no espaço que deu, ficou pronto só agora, quase 4 horas da tarde de 25 de dezembro. Ainda é Natal! Pois, apesar disso, e do constrangimento que sinto e daquele que possa causar, desejo a todos os amigos leitores e escritores do Anoitan um Feliz Natal!
