Anoitan

“Se sempre há um amanhã, sempre há um anoitã.”

Arquivo da categoria ‘Anarquismo e Política’

Everything is a Remix Parte 4

Publicado por Sem em março 21, 2012

Quentinho como pão, acabou de sair o 4º e último vídeo – com legendas – da série organizada por Kirby Ferguson, que questiona a originalidade na criação artística e propõe um novo modo de pensar direitos autorais…

 

Everything is a Remix Parte 4 [legendado]

 

 

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Pirataria

Publicado por Sem em fevereiro 1, 2012

 

Pirataria?

Roubo

Direito autoral

Mas quem é dono do mar?

Roubo ou partilha

Direito?

Do cidadão

Do autor

Da criação

E a natureza?

Direitos violados?

Direitos humanos?

Crise?

A natureza sendo violada

Domínio

Poder

Lei do mais forte?

Quem com quem

Ou contra?

Quem e o que determina

Domínio público

Particular

Fronteiriço

Propriedade privada?

Propriedade intelectual?

Consenso?

Copyright?

Creative Commons?

O que é violação do direito

Quem é responsável?

Quem é responsabilizado?

Quem está em dívida

Quem escraviza

Quem é escravo?

Até onde vai o direito

O meu

O teu

Qual a fronteira

Do nosso

E do abuso?

 

Esse é um debate em aberto e longe de qualquer conclusão, aceso ainda mais na última semana, com a discussão e retirada no congresso americano dos projetos de lei, SOPA e PIPA, que pretendiam regulamentar a questão dos direitos autorais na Internet daquele país – mas que afetaria a Internet de modo global.

Apesar da retirada da pauta de votação pelos próprios autores congressistas, frente aos protestos massivos que sofreram, o que aparentou ser uma vitória da liberdade de expressão na rede foi apenas um recuo estratégico dos lobistas da indústria de cinema de Hollywood e afins. A verdade é que nenhum lado realmente ganhou nada ainda e a questão segue em aberto, polêmica e polarizada, por enquanto…

E é algo que nos afeta, dê-nos ou não conta. Essa é uma discussão sem fronteiras, porque coloca em xeque em qual mundo desejamos viver e projetar para as próximas gerações.

Por isso devemos tomar, senão um partido, pelo menos uma posição.

Eu partilho da opinião dos autores dos vídeos a seguir, que recomendo:

 

Everything is a Remix Part 1 [legendado]

 

Everything is a Remix Part 2 [legendado]

 

Everything is a Remix 3 [legendado]

 

E aguardando a continuação…

 

 

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O proibido de fato – por Elielson

Publicado por adi em novembro 29, 2011

Existiu o modelo perfeito de felicidade, um Paraíso, que só é encontrado em crianças livres, livres para ir e vir e livre de idéias adultas. Essa foi a primeira condição da vida humana, quando a inconsciência e a consciência eram uma só.

A verdade por trás dos mitos derruba a interpretação livre e derruba o literalismo. Há mesmo uma fluência em que as informações formam um estado interpretativo infalível, essa interpretação está ligada a moral e as ataduras que envolvem a prática de tal moral, e a moral que se segue após atos imorais, que não libertam a vida para uma imoralidade inconsequente, nunca.

Primeiro ato imoral: Sexo. Vão dizer que não, que sexo é bom, dá prazer e não mata, não desrespeita mandamentos, e assim se justifica que não é de todo um mal. Mas quem disse que o sexo é proibido por ser um mal que foi praticado? A proibição visa consequências de atos, não o ato em si, então a partir do sexo como pedra fundamental do pecado, podemos analisar por suas consequências a ligação entre o ato em si e o mal do ato em si.

 

 

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O demônio são os outros

Publicado por adi em abril 26, 2011

Antes de mais nada,  minha intenção com esse post não é uma crítica sobre a crítica, nem aos blogs que escrevem posts criticando outras posturas, críticas sempre fizeram parte do amadurecimento e crescimento do ser, mas é uma crítica à forma como a própria crítica é expressada nos “comentários” principalmente, de forma “agressiva e violenta” gratuitamente e sem necessidade.

Há vários debates e diálogos na internet, onde todos podem expor suas opiniões, e o que mais percebemos nos comentários são principalmente muitas críticas pejorativas. Nos blogs que participo normalmente as críticas  são sobre espiritualidade e religião, mas em outros blogs as críticas se estendem pelos mais diversos assuntos, desde que haja essa possibilidade de se comentar sobre alguma coisa ou sobre alguma pessoa.

E eu acho muito natural que cada um dialogue sobre os próprios conceitos e também sobre outros conceitos, como uma forma de autoconhecimento até.  É uma forma bacana de rever, de expandir horizontes, limites e fronteiras. Acho que muitas pessoas gostam bastante de conversar sobre esses assuntos metafísicos e espirituais, e mais ainda, apreciam um bom diálogo, não necessariamente uma concordância, na verdade  acho muito mais proveitoso quando surgem pontos divergentes e podemos expor essas questões, sem a necessidade de certezas absolutas e tentar compreender que se o seu conceito ou conceito do outro servir ótimo e obrigado, se não servir, a amizade é a mesma.

Mas o que eu acho totalmente desnecessário num debate ou diálogo, ou na maneira de expor uma opinião, é a forma como as pessoas acabam tentando impor sua própria realidade como se fosse “a verdade unica e absoluta” com agressividade até, algumas vezes com violência totalmente gratuita. E eu não acho que violência física é diferente de violência verbal, porque não é. Muitas vezes uma agressão verbal pode ser mais violenta que uma agressão física, porque não temos acesso direto ao “outro”  interlocutor, não o conhecemos, muito menos conhecemos seus limites. Leia o resto deste post »

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Comportamento

Publicado por Sem em dezembro 29, 2010

 

A grande Consciência Coletiva move-se por sobre a própria inconsciência como um homem atirado de surpresa ao alto-mar: debate-se a princípio, depois afunda, boia, nada, é resgatado ou afoga-se, conforme sua experiência, sorte ou presença de espírito; e navega, se possuído de instrumentos; ou naufraga, se tomado pela natureza interior do pânico ou do destino selvagem alheio ao seu íntimo.

 

Como o homem aprendeu com o mar, a grande Consciência Coletiva aprendeu a diferenciar-se do grande Inconsciente Universal e a dali tirar o seu primeiro sustento. Primeiro vem a sobrevivência, depois a vivência.

 

Como o homem, a grande Consciência teme e ama a vastidão do mar inconsciente. O mar aqui é tomado como o Grande Absoluto para ambos.

 

Como o homem a Consciência faz do mar trabalho e lazer, reflexão e descanso, vida e morte. Ali igualmente experimentam os seus infinitos em estado líquido.

 

No mar surfa-se, pesca-se, mergulha-se; a concha, a onda, a areia, o peixe, o óleo, o gelo, o lixo; em estreita relação com o sol, com a pedra, com o vento, com o firmamento.

 

Do mar vem muito do que é visível à vida, mais ainda vem o que é invisível – como o oxigênio da imensa floresta de plânctons.

 

O homem e a Consciência têm como verdade uma certeza: de que ou se está na crista ou no caldo. Para a Consciência, como para o homem, ir ao fundo é a morte.

 

Espertos, só vão aos abismos com os devidos cuidados, munidos de instrumentos e de pelo menos um Manual de Escafandrista. Assim até hoje dominaram a terra.

 

Perguntas que ficam no ar:

 

  • Seriam esses abismos a morte, seriam mesmo?

 

  • Seria de outra feita errada a luta de um ser para se manter na crista da onda? Lutar desse modo pela vida seria assim um mal instigado por Lúcifer ou outro correligionário seu qualquer?

 

  • Aliás, seria a grande Consciência Coletiva um demônio pronto a nos enganar ou a negar para si própria o seu eu desconhecido?

 

  • Entenderia a Consciência Coletiva o desconhecimento que tem de si como o completamente Outro, assim como faz o homem?

 

  • Seria a Consciência um ser em sofrimento, como o homem?

 

  • Ou seria a grande Consciência outra coisa, a consciência que a humanidade tem de si mesma, a sua própria história?

 

  • Seria então a Consciência um ser múltiplo, como as diferentes histórias que podemos contar ao adotarmos variadas perspectivas?

 

  • Seria a morte natureza de quem? Instigada por quem? Quem faz a Grande Consciência?

 
Para entender o Zeitgeist do nosso tempo, ou para saber um pouco melhor das personas que vestimos, ou das ideias do tempo que compramos e consideramos nossas legítimas, assista:

 

We All Want to Be Young

 

 

Basta clicar no título. O vídeo de aproximadamente 10 minutos foi concebido a partir de pesquisas de mercado realizadas por 5 anos pela Box 1824, empresa voltada a detectar tendências de comportamento e consumo.

Tem roteiro e direção de Lena Maciel, Lucas Liedke e Rony Rodrigues.

Licença aberta pelo Creative Commons.

 

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WikiLeaks

Publicado por Sem em dezembro 16, 2010

Ou de como o segredo era a alma do negócio…

 

 

 

 

 

“O WikiLeaks não é um site, mas uma possibilidade da era digital que se materializou num site. Outros virão. O vazamento indiscriminado vai continuar.”

Eugênio Bucci

 


Eugênio Bucci, professor da ECA-USP, escreveu hoje um interessante artigo no Estadão a respeito da WikiLeaks e as reações que o site – que Julian Assange ostensivamente representa –  tem provocado; especialmente nas mentes totalitárias e que, estando no poder ou não, ainda pensam o mundo pós-internet em termos de controlar sem serem controlados, vigiar sem serem vigiados…

O que isso tem a ver com magia? Tudo, se magia for o poder de transformar a realidade conforme os nossos desejos.

Aqui para ir ao artigo na íntegra.

 

 

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Lágrimas na chuva

Publicado por adi em dezembro 13, 2010

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STALKER

Publicado por adi em agosto 13, 2010

Eu assisti o filme “Stalker” que o nosso amigo Timóteo Pinto indicou, já faz algum tempo aliás, e por isso já não me lembrava exatamente de todos os detalhes. Mas esse filme não me saía da cabeça, por isso achei melhor escrever um post sobre ele, então assisti novamente, e de fato não me lembrava como é muito bonito, sensível, místico, triste também… o tipo de filme que quanto mais se assiste mais se revela, e mais agrada.

Pra quem gosta desse tipo de filme que tem uma mistura poética visual, é bastante interessante, e recomendo. Bom, este post não é bem uma resenha, mas um pequeno estudo de sua simbologia, contém muitos “SPOILERS”, então quem gosta do fator surpresa, melhor assistir o filme primeiro antes da leitura. Dá pra baixar o filme na net.

Tomei a liberdade de copiar este pequeno trecho do wikipedia, como segue:  ” Stalker (em russo: Сталкер) é um filme de 1979 do cineasta russo Andrei Tarkovsky, vencedor do prémio especial do Júri do Festival de cinema de Cannes de 1980. Foi filmado, em sua maior parte, na Estônia, então integrante da União Soviética. Stalker é um termo inglês que significa, em tradução livre, “o espreitador”, “aquele que se esgueira”. Tarkovsky, os três atores principais, além de outras pessoas que se envolveram na produção, morreram poucos anos depois, em razão de tumores presumivelmente originados da exposição às instalações industriais (radiotivas) da Estônia, onde várias cenas do filme foram gravadas. É uma adaptação muito livre da novela de ficção científica Roadside Picnic, dos irmãos Strugatsky. Numa entrevista, Tarkovsky chegou a declarar que as semelhanças do filme com esta novela restringiam-se ao uso das palavras “zona” e “stalker” apenas.”

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Avatar – o filme e seu simbolismo

Publicado por adi em dezembro 30, 2009

Muitas pessoas que já assistiram ao filme, ou que ainda não assistiram tem acompanhado as várias sinopses ou críticas sobre o filme via internet, algumas bem favoráveis, outras nem tanto. Como gostei muito do filme, e recomendo a todos assistirem, achei interessante também escrever uma resenha sobre ele aqui no Anoitan.

Falar sobre as imagens de Avatar é pouco, falar da tecnologia utilizada também, porque Avatar além de ser um deslumbre visual, é ainda mais, é ainda além do próprio visual, este que já é fantástico por si só.

James Cameron ao conceber o filme totalmente inovador, se utilizou de elementos arquetípicos pra deixar uma mensagem bem atual penetrar no consciente das pessoas. Além da mensagem espiritual, há um forte apelo ecológico que nos faz repensar nossas atitudes como humanos que somos.

Há muitas resenhas sobre Avatar na net, a maioria falando do aspecto 3D do filme e de toda a tecnologia usada; sim uma inovação que proporciona uma experiência única, onde 60% do filme foi  feito  em computação gráfica, portanto, vou comentar somente o aspecto mítico, simbólico e arquetípico, pois é esse que junto com o rico visual, mexe com a gente, e faz a gente sair de lá com a sensação de quase uma experiência mística.

E claro, é uma experiência visual onde a imagem e a tecnologia em 3D, dão vida a cada detalhe, e Cameron torna Pandora real; lá tudo é real aos olhos, desde o povo Na’vi, a fauna e a flora, tudo é um espetáculo de vida e beleza.

Sim, há muitos paralelos entre outros filmes como Matrix, Senhor dos Anéis, Star Wars, Dança com Lobos, o Último Samurai, etc; porque Cameron conta a jornada do herói, mas o diretor narra de uma maneira totalmente inovada, como o rejuvenescimento do arquétipo, e com certeza o arquétipo renovado desperta algo dentro da gente.

Avatar conta a trajetória de Jake Sully, um soldado da marinha que aceita o desafio de ocupar o lugar de seu irmão gêmeo (morto), no programa Avatar. O Ano é 2154 e se passa numa lua que se chama Pandora, que orbita o planeta Polyphemus (ficção) no sistema de Alpha Centauri; detalhe, ele é paraplégico. Em Pandora os humanos estabeleceram pequena base militar e cientifica com o intento de obter um valioso minério Unobtanium, rica fonte de energia. Como Pandora é um mundo com atmosfera imprópria para os humanos, foi criado corpos chamados Avatares, mistura de DNA humano com DNA dos nativos Na’vis, com o objetivo de, por um lado, amistosamente retirar os nativos de sua área, ou, por outro lado, se misturar e aprender os costumes dos nativos e verificar seu ponto fraco, visto que o território dos nativos se localiza acima da maior reserva do mineral precioso.

Até aqui, tudo isso pode ser encontrado nas várias sinopses sobre o filme na net; e a partir deste ponto, contém muitos  spoilers (totalmente), portanto, melhor assistir ao filme primeiro, pois recomendo a leitura somente a quem assistiu e quer verificar sua simbologia. Leia o resto deste post »

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Infeliz Natal

Publicado por Sem em dezembro 25, 2009

Não chore, Papai Noel é bonzinho! Olha só como ele está assustado, tadinho…

Brincadeiras à parte, final de ano é uma época assustadora mesmo, os espíritos ficam sensíveis. Até parece que não é natural no ser humano trocar presentes, quer dizer, dar algo para e receber algo de, parece ser custoso demais. E não estou me referindo ao aspecto financeiro, que tem o seu custo, evidentemente, mas ao aspecto emocional que por essa época parece exorbitar e deixar os nervos da maioria à flor da pele.

Uma das coisas que talvez mais assustem no natal, eu penso, seja essa obrigatoriedade da troca de presentes. Oscilamos entre a dúvida e o temor ao nos tornarmos reféns daqueles com quem costumamos trocar presentes e lembranças. A questão é que se o outro não gostar do que lhe dou, como fico? ou como ficamos nós? e se eu posso ser avaliado pelo presente que dou, então, valho pelo meu presente? não viro e não viramos nós todos objetos nas mãos uns dos outros?

Pois é, dar é um problema, principalmente porque tenho que parar uns instantes para pensar nesse alguém a quem vou presentear, no quanto ele significa para mim. O outro me obriga então a sair o mínimo que seja de mim e a pensar nele. E bem sabemos que hoje nem todos se sentem confortáveis com o exercício da alteridade. É como diz o Birman, o professor Joel Birman, são tempos de narcisos cultivados.

Depois, se a questão gira em torno do quanto o outro vale para mim, é também por quanto eu sou avaliado por ele, o que transforma os nossos afetos em pesos e medidas que podem ser quantificados. Deixamos de ser seres numa relação para nos tornarmos frações intercambiáveis. Fico então naquela dúvida cruel, valerá o meu presente a amizade, o coleguismo ou o amor que lhe dedico? e o que eu recebo é o valor que o outro me dá? será oportuno ser generoso com fulano? adequado ser sovina com sicrano? mas quem é que pode determinar ou saber a exata medida e o valor de uma amizade?

Quem sabe o mais assustador do natal não seja nenhumas dessas problemáticas existenciais entre as generosidades e as sovinices por todos nós praticadas e nem entre os narcisismos e as coisificações estimulados pela sociedade de consumo, o verdadeiro problema está imbricado nisso tudo, mas, um pouco mais adiante, está na gratidão.

Sim, pois receber pode ser muito mais assustador do que dar. Receber é a admissão da minha vulnerabilidade e da minha insuficiência perante o outro, de que ele me supre em coisas que eu não tenho, que me faltam, que ele tem, e por isso me dá.

A revelação da nossa vulnerabilidade é mesmo uma das experiências psíquicas mais dolorosas de absorver. É sublime e libertadora também, mas tão assustadora que a maioria de nós evita defrontar-se com a crua realidade das nossas insuficiências e só na marra ou por força das circunstâncias é que haveremos de um dia com ela nos acertar.

O que mais assusta na gratidão, que por essa época do ano somos coagidos a externar, é que se ele tem e eu não tenho e por isso dele recebo, devo ainda agradecer ao filho da mãe que me desnuda nas minhas carências?

Assusta muito no natal ter de lidar com a gratidão. Não é lidar com aquilo que temos ou com aquilo que construímos e bem ou mal fizemos, assusta é o ter de lidar com aquilo que não temos. Sobretudo o que de graça recebemos.

Gratidão é algo tão fora de moda hoje que as pessoas mal conseguem disfarçar a ingratidão que sentem quando são presenteadas.

Não sei exatamente o que nos torna mais sensíveis por essa época de festejos de final de ano, se são as questões imbricadas na arte do dar e na gratidão do receber, mas, falando francamente, quem sabe seja simplesmente a instituição do Natal que esteja falida. Que o Natal instituído é que tenha perdido o seu fundamento mítico e se tornado apenas num feriado a mais no calendário a ser guardado, tão banal quanto o 7 de setembro, uma convenção social ressoando vazia de sentido à alma dos homens.

Na linguagem usada pelo povo daqui do Anoitan, significa que o Natal deixou de ser um deus para se transformar num arconte. Mas tudo isso está melhor dito e explicadinho nos registros dos arquivos do extinto Franco-Atirador, e muito bem sintetizado ali os motivos desse nosso mal-estar.

Então, é a instituição do Natal que está falida…

Nós sabemos que a instituição que instituiu o natal vem falindo há tempos, que o edifício da Igreja Católica Apostólica Romana vem sendo demolido, tijolo por tijolo, e em acelerado desmonte, desde o advento do iluminismo lá pelo siècle XVIII. E que bom que estejamos recuperando a visão do horizonte e dos poentes que antes estavam encobertos pelos claustros aterradores do pecado e da culpa. Mas é de se lamentar que junto estejam se perdendo também algumas capelinhas singelas e, por que não, alguns majestosos salões de amplo espaço acústico construídos com o sangue de Eros correndo na veia dos homens. É uma pena, porque se algum dia o espírito de Deus passou pela Terra, Ele passou por esses lugares. Pelo menos eu lamento que o adão de Michelangelo seja hoje apenas um afresco na parede, verdade que um trabalho ainda reconhecido, mas apenas isso, um belo afresco. Lamento que o vitral de Notre Dame seja hoje tão somente vidros coloridos dispostos a caracterizarem uma época e um estilo. Lamento que o espaço para o silêncio em igrejinhas e igrejões esteja hoje sendo encoberto, não pelo barulho dos sinos, mas pelo burburinho ensurdecedor do trânsito de todas as cidades do mundo. Realmente, com o mal que se perde, o bem também está se perdendo, e tudo vai se perdendo, como o natal está se perdendo.

É a minha tristeza, mas o meu lamento não é pela época, pois bem lá no meu íntimo não consigo evitar de ver nessa época a mais feliz do ano. De algum modo arranjo sempre um motivo para me alegrar com alguma coisa e creio que independente do que seja o costume e bacana de se dizer por aí pelos círculos que frequentamos, vou morrer acreditando no Natal.

Falando francamente, não há nada de errado com o Natal!

O espírito do Natal nada mais é do que a celebração do espírito do Puer. A renovação da vida. E o que pode haver de errado com o Puer? nada, é claro, apenas se o espírito for usado para fins de controle de uns seres sobre outros, os problemas começam…

E é o que acontece com toda instituição ao longo de sua existência, tese também sustentada pelo sociólogo e psicanalista Francesco Alberoni, bastante detalhada e melhor vista em Gênese, que é o livro síntese da obra deste pensador italiano.

O Natal perdeu, enfim, o seu sentido religioso/arquetípico/mitológico de revificação do espírito para outros objetivos que de espirituais não têm nada, quer dizer, nada tem a ver com o Puer.

O que existe de mais aterrador no natal, para mim, é essa institucionalidade de ser feliz a qualquer custo. Institucionalidade é bem um palavrão, que aqui eu emprego como uma espécie de xingamento mesmo. Essa felicidade a qualquer preço é simplesmente o maior ladrão da nossa alegria de viver. Ser feliz na marra é, no fundo, a própria imagem da infelicidade. E dá-lhe estéticas niveladoras e prozacs que nos deixam todos iguaizinhos e pasteurizados, sem vida!, daí para a coisificação dos seres é um pulo e para o consumo desenfreado só mais um passo.

A obrigação de ser assim ou assado é o que mata com o espírito do Natal, para falar a verdade, acaba com qualquer época do ano…

Mas voltando ao assunto da pauta, não vejo nada de errado em se querer celebrar o natal junto de quem se ame, que supostamente é ou deveria ser a família que temos. Apenas como está cada vez mais raro gostar da família que temos, então, a perspectiva de passar algumas horas na mais pura representação, trocando presentes que não se pensou e nem se quer, comendo peru industrializado e sem gosto, sorrindo amarelos sorrisos para gente que nada tem a ver conosco, nesse caso, o natal é mesmo a própria desintegração familiar, desastre total.

Não sei quantas pessoas percebem o quanto está ficando cada vez mais fora de uso festejar o natal. Quer dizer, festejar mesmo, em meio à família e aos amigos queridos, não representar festejos de uma euforia vazia e que apenas alimentam o oco insaciável do consumo. Mas festejar de verdade, estando junto à família como se costumava fazer naqueles tempos passados em que a família ainda existia. Como eu vivi  por aquelas priscas eras, atualmente extintas, posso afirmar que os natais eram tão infelizes quantos os de hoje, mas pelo menos éramos infelizes juntos, quando supostamente estávamos ao lado de quem amávamos, gente que podíamos contar para o melhor e principalmente para o pior, e eu acho que isso teve e terá sempre algum valor.

No estágio civilizatório em que nos encontramos, não sei quantos percebem isso, mas está se tornando cada vez mais constrangedor desejar um simples feliz natal a alguém, sem o risco de ser considerado de outro planeta só por sustentar tal desejo. Quer dizer, desejo sincero de felicidade ao outro, de uma felicidade dada de graça, e não da felicidade a qualquer custo, que como do fundo do coração sabemos, custa o olho da cara.

Deve ser embaraçoso desejar boas festas hoje porque vivemos num tempo de muitos progressos e de avanços científicos e que, afinal, deixamos para trás toda essa baboseira de arcadismos de trocas e de dependências mútuas, todas essas coisas obsoletas que largamos ao avançar num tempo de pleno gozo de nossa independência e liberdade. Se já não estamos lá nessa maravilhosa wonderland, estamos a caminho… Não é isso o que a sociedade do controle nos exorta a pensar e acreditar, de que temos ou poderemos ter um dia total gerência sobre nossas vidas?

Mas vá lá, não sei se ainda dá tempo, eu comecei a escrever esse texto na noite de 23 de dezembro e, no espaço que deu, ficou pronto só agora, quase 4 horas da tarde de 25 de dezembro. Ainda é Natal! Pois, apesar disso, e do constrangimento que sinto e daquele que possa causar, desejo a todos os amigos leitores e escritores do Anoitan um Feliz Natal!

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