Anoitan

“Se sempre há um amanhã, sempre há um anoitã.”

Tentar ser o que você é

Publicado por adi em julho 12, 2012

Desde o ano passado venho pesquisando sobre alguns assuntos  pra compor um post sobre desconstrução de conceitos, ideias, etc. Encontrei no site Shunya – Budismo um texto muito bom de Chögyam Trungpa Rinpoche, retirado do livro “Louca Sabedoria” – editora Shambala, e achei interessante trazer aqui pro Anoitan um pedacinho do texto. Este processo de desconstrução descrito abaixo, utilizado para ultrapassar a mente conceitual e ir além do pensamento e além dos opostos, se relaciona com o método do Vedanta Neti-Neti (não é isto, nem aquilo) e também com a prática Neither-Neither (nem-nem ou não esta – nem isso) desenvolvida por Austin Osman Spare, que nós veremos no próximo post. 

Tentar ser o que você é: Esta possibilidade está ligada com ver nossa confusão, nossa miséria e dor, mas não transformar essas descobertas numa resposta. Ao invés disso, exploramos adiante, mais profundamente, sem procurar uma resposta. É um processo de trabalho com nós mesmos, com nossas vidas, com nossa psicologia, sem procurar por uma resposta, mas vendo as coisas como elas são – vendo o que acontece em nossas cabeças diretamente e simplesmente, totalmente literalmente. Se somos capazes de nos comprometermos com um processo como este, então há uma tremenda possibilidade de que nossa confusão – o caos e a neurose que permeiam nossa mente – possam se tornar ainda outra base de investigação. Então olhamos mais e mais profundamente. Não transformamos qualquer coisa num ponto principal ou numa resposta de qualquer tipo. Por exemplo, podemos pensar que porque descobrimos uma certa coisa que está errada conosco, que deve ser isso, que isso deve ser o problema, que deve ser a resposta. Não. Nós não nos fixamos nisto, vamos além. “Porque isso é assim?” Olhamos mais adiante. Perguntamos “Porque isso é assim? Porque há espiritualidade? Porque há despertar? Porque há este momento de alívio? Porque há uma coisa como descobrir o prazer da espiritualidade? Porque, porque, porque?” Vamos mais fundo e sempre mais além, até que alcançamos o ponto onde não há resposta. Não há sequer uma pergunta. Tanto o questionamento quanto a resposta morrem simultaneamente em determinado ponto. Elas começam a se esfregar tão perto que se curto-circuitam de alguma forma. Nesse ponto, tendemos a desistir da esperança por uma resposta, ou por qualquer outra coisa, aliás. Não temos mais nenhuma esperança, nem mesmo uma. Estamos puramente desesperançosos. Poderíamos chamar isso de transcender a esperança, se você quiser colocar em termos mais gerais.

Esta desesperança é a essência da louca sabedoria. É desesperançosa, profundamente sem esperança. Está além da desesperança. (Claro que seria possível, se tentarmos transformar essa desesperança em si mesma em algum tipo de solução, tornar-se confuso novamente.)

O processo é um de ir além e mais fundo sem qualquer ponto de referência da espiritualidade, sem qualquer ponto de referência de um salvador, sem qualquer ponto de referência de bondade ou maldade – sem qualquer ponto de referência de qualquer tipo! Finalmente poderemos alcançar o nível básico da desesperança, de transcender a esperança. Isso não significa que viramos zumbis. Nós ainda temos todas as energias; temos a fascinação da descoberta, de ver este processo desabrochar continuamente. Este processo de descoberta automaticamente se recarrega de forma que continuamos indo mais fundo. Este processo de ir mais fundo é o processo da louca sabedoria, e é isso que caracteriza um santo na tradição budista.”

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Uma resposta para “Tentar ser o que você é”

  1. Sopoesia disse

    Aguardando loucamente a continuação… :)

    ………………………………………………………………

    Árvore adentro

    Cresceu em minha fronte uma árvore.
    Cresceu para dentro.
    Suas raízes são veias,
    nervos suas ramas,
    Sua confusa folhagem pensamentos.
    Teus olhares a acendem
    e seus frutos de sombras
    são laranjas de sangue,
    são granadas de luz.

    Amanhece

    na noite do corpo.
    Ali dentro, em minha fronte,
    a árvore fala.

    Aproxima-te. Ouves?

    Octavio Paz, tradução de Antônio Moura

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