ANOTHERING
Num domingo, que já faz tempo, o Kaslu escreveu este texto :
“(…) como se uma linha de fuga, mesmo que começando por um minúsculo riacho, sempre corresse entre os segmentos, escapando de sua centralização, furtando-se à sua totalização (…) Do ponto de vista da micropolítica, uma sociedade se define pelas suas linhas de fuga, que são moleculares. Sempre vaza ou foge alguma coisa, que escapa às organizações binárias, ao aparelho de ressonância, à máquina de sobrecodificação: aquilo que se atribui a uma evolução dos costumes, os jovens, as mulheres, os loucos, etc.
” In DELEUZE, Gilles e GUATTARI, Felix Mil Platôs: Capitalismo e esquizofrenia vol 3. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1996. p. 94

“Um rizoma não começa nem conclui, ele se encontra sempre no meio, entre as coisas, inter-se, intermezzo. A árvore é filiação, mas o rizoma é aliança (…) Entre as coisas que não designa uma correlação localizável que vai de uma para outra e reciprocamente, mas uma direção perpendicular, um movimento transversal que as carrega uma e outra, riacho sem inicio nem fim, que rói suas duas margens e adquire velocidade no meio”.
In DELEUZE, Gilles e GUATTARI, Felix Mil Platôs: Capitalismo e esquizofrenia vol 3. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1996. p. 37
I
Fernando Pessoa, que não acreditava na necessidade de ser idêntico a si mesmo, e constante e coerente, e unitário, fez da escrita a mais estonteante experiência de tornar-se outro do que ele mesmo. Conseguiu, com isso, visitar universos muito diferentes, sensações muito díspares, vivências contrastantes, pensamentos muito estranhos uns dos outros. E até inventou uma palavra para essa experiência de virar outro: outrar. Não é preciso ser louco, nem poeta para fazer isso, pois fazemos esse exercício cotidianamente, diante de um raio de sol, uma brisa, um cão, um desconhecido, um conto, uma imagem, uma dança, uma paixão. Cada encontro que me afeta pode ser uma ocasião para outrar, cada força que eu cruzo pode disparar em mim um outramento. Será que eu sou outro do que eu mesmo? Ou será que eu sou a reunião de todos esses outros? Será que não sou justamente a coexistência dessas múltiplas forças, direções, outramentos? Gilles Deleuze, juntamente com Felix Guattari, batizou esse tornar-se outro de devir .
“Meu devir- mulher, meu devir- criança, o devir- girassol de Van Gogh, o devir-barata de Kafka, o devir- índio de Artaud, nosso devir-negro, o devir- esplendor de Arthur Bispo do Rosário, o devir- molécula de Juan Castaneda….”
De quantos devires sou capaz? Talvez de tantos quantas forem as forças que me rodeiam, me atravessam e me habitam. Sou o campo de batalha para essa miríade de forças, muito intensas, poderosas, minúsculas ou maiúsculas, e todas elas de algum modo refazem meu contorno, desfazem a minha forma de vida em proveito de outras tantas formas de vida. A potência criadora busca experimentar o que essas vidas inauguram de novo, e vai buscar nesse caos de forças o material para os múltiplos devires e as múltiplas vidas que ele for capaz de inventar.
II
Você entende por que resistir, por que manter o eu, por que todos os dias acordar e sempre e sempre suportar que seja hoje, você entende? Você entende?…. Estamos à espera do retorno do rei, enquanto isso, outremos sem perder a doçura, pois sabemos que debaixo de cada espreita existe a autenticidade de proteger o reino para o retorno do rei… Ah! Loucos! Loucos e brilhantes, poderosos e maravilhosos, nosso devir-esplendor Arthur Bispo do Rosário….
Preservar a capacidade de outrar é nosso objetivo aqui, nunca esquecer que através da oportunidade da espreita e se ser, assim, quem quiser, preservamos a possibilidade de ser ninguém….. Todo o esforço da nossa sociedade é um esforço para controlar esta linha de fuga…. nos entupindo de imagens possíveis, de Hollywood, de tv globos e afiliadas, para todos os gostos, para controlar nossa capacidade incontrolável de outrar….. Fernando que não é uma pessoa ensinou…. Todas as máquinas menores numa velocidade absoluta em suas capacidades de outrar… outrar tanto, que a capacidade de espreita se imponha de tal maneira que não seja possível não ser autêntico na espera pelo retorno do rei…. vamos da maneira mais insensata e desesperada… imprevisível… vamos em direção a Mordor: jogar o anel na própria fornalha ambiciosa que o quer e que o gerou…. Espreitando por um caminho insensato e desesperado, à espera do retorno do rei, que em algum momento espreitaremos e esse outramento será o devir-rosa do retorno do rei….é quando o outramento se transforma em uma linha de fuga por entre o rizoma que é a vida, que é a parte do rio que rói as suas margens em busca de novos leitos, criando novos leitos…. nosso devir-guerreiro D. Juan Castañeda….
Postado por Kaslu às 8:52 PM / Domingo, Abril 25 2004
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