Publicado em Março 28, 2009 por Kingmob
É, acabou. Acabaram as tardes aos bancos na praça , a poesia vindo meio sem graça num sinal no rosto leitoso, acabou essa segurança que a gente acha que tem mas nunca nos pertenceu.Não há paz no exílio. A paz que encontrava no amor se foi, paloma etérea do espírito santo que não me pertence. Não me pertence como: a escrivaninha onde o Sanjo Anjo de Deus vomita as escrituras do tempo que escoa livre de maneirismos particulares da consciência. Acabou a maneira como eu me via refletido no espelho -lindo, lindo, lindo da sua forma de ser. É difícil expor assim aos quatro ventos indefinidos que sem o que não restou é difícil saber para onde ir. O lar não mais contém o açúcar e o leite. Minhas pupilas não medram uma realidade fausta como outrora. Seria avareza chamar o sonho que morre de morte. Nesta aridez, só, eu vivo, vivo sim. Mas a solidão é tanta que não resta a quem dizer, não resta ser porque não resta você. Meus familiares, os fantasmas fulgurantes, estão de volta, figuras informes de placenta esverdeada. Querida, não mais restam os portos estelares nos quais aportar meu navio de bandeira pirata. A vida é derivar e ciscar qual galo faminto aqui e ali sem alcançar nunca a paz dos teus olhos de musa de mangá, até que algumas canções de flautas sorrateiras,que restam num ou noutro lábio abençoado façam-me recordar que eu já fui muitos outros e outras. Já tive seios como tu, e já fui matador de almas caridosas, e ódio e amor corroentes são a herança da minha matéria. Resta-me alguma luz. Aposento-me destas bobeiras etéreas como o mar e o luar e faço o que me resta: chorar até que se desfaçam os laços irremediáveis dessa roda que gira e gira e gira.
Arquivado em: Amor, Textos
King
é verdade que deu uma pontada no peito quando li este texto e desejei de imediato que fosse só uma licença poética, porque esta dor que conheço tão de perto, não desejo a ninguém.
Daí pedi às cartas que me dissessem o que te dizer nesta hora, fosse esse só um devaneio ou não.
E a sabedoria que reconheci e que aliviou qualquer piedade que eu pudesse sentir por alguém nesta hora, inclusive por mim mesma, se desfez como fumaça.
No começo, conheceste o desafio de experienciar os sentidos e o fizeste. E agora a possibilidade morreu, porque estavas dentro do teu castelo, único, puro, inocente, voltado para teu Sol interior e era momento para tal. Mas só porque a roda gira é que podes sair de dentro de ti, e ir realizar o trabalho artesão a que viste designado: o de lapidar a tua alma. Vais agora para a caverna, se recolhe, mas imita a lagarta e faz a metamorfose que te transformará no professor da tua Verdade. E o que vai restar é solitário, mas será tu, muito além da herança da tua matéria…
Meu irmãozinho que eu nem conheço, mas de afinidades nos céus e os deuses que te protegem sei que são os mesmos que me protegem… Eu só rezo pra que você nunca abandone a poesia. A poesia tem o dom de curar e salvar: é Quiron, é Xamã. Salva quem faz, salva quem lê. Um abraço apertado!
Essa aqui já me salvou:
“Aqui na orla da praia, mudo e contente do mar,
Sem nada já que me atraia, nem nada que desejar,
Farei um sonho, terei meu dia, fecharei a vida,
E nunca terei agonia, pois dormirei de seguida.
A vida é como uma sombra que passa por sobre um rio
Ou como um passo na alfombra de um quarto que jaz vazio;
O amor é um sono que chega para o pouco ser que se é;
A glória concede e nega; não tem verdades a fé.
Por isso na orla morena da praia calada e só,
Tenho a alma feita pequena, livre de mágoa e de dó;
Sonho sem quase já ser, perco sem nunca ter tido,
E comecei a morrer muito antes de ter vivido.
Dêem-me, onde aqui jazo, só uma brisa que passe,
Não quero nada do acaso, senão a brisa na face;
Dêem-me um vago amor de quanto nunca terei,
Não quero gozo nem dor, não quero vida nem lei.
Só, no silêncio cercado pelo som brusco do mar,
Quero dormir sossegado, sem nada que desejar,
Quero dormir na distância de um ser que nunca foi seu,
Tocado do ar sem fragrância da brisa de qualquer céu.”
E essa:
“Senhor, a noite veio e a alma é vil.
Tanta foi a tormenta e a vontade!
Restam-nos hoje, no silêncio hostil,
O mar universal e a saudade.
Mas a chama, que a vida em nós criou,
Se ainda há vida ainda não é finda.
O frio morto em cinzas a ocultou:
A mão do vento pode erguê-la ainda.
Dá sopro, a aragem – ou desgraça ou ânsia-,
Com que a chama do esforço se remoça,
E outra vez conquistemos a Distância-
Do mar ou outra, mas que seja nossa!”
As duas do Pessoa e essas da Florbela:
“Amo as pedras, os astros e o luar
Que beija as ervas do atalho escuro,
Amo as águas de anil e o doce olhar
Dos animais, divinamente puro.
Amo a hera que entende a voz do muro,
E dos sapos, o brando tilintar
De cristais que se afagam devagar,
E de minha charneca o rosto duro.
Amo todos os sonhos que se calam
De corações que sentem e não falam,
Tudo o que é Infinito e pequenino!
Asa que nos protege a todos nós!
Soluço imenso, eterno, que é a voz
Do nosso grande e mísero Destino!”
“Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!
É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!
É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim…
é condensar o mundo num só grito!
E é amar-te, assim, perdidamente…
É seres alma, e sangue, e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!”
Não abandone a poesia, nunca se sabe as vidas que poderá salvar…
King,
E tem também a Oração do Coração, que poderá te levar onde é preciso nesta situação que passará, meu irmãozinho de quem conheço apenas a linda expressão no anoitan. Se quiser saber sobre ela, a philocalia e a ecclesia te dirão mais, aqui na net .
Tem sido o pronto-socorro espiritual de quantos conheço que a ela recorrem; procede da tradição hesicasta , e, praticada continuamente nessas horas difíceis, posibilita A conexão salvadora.
Namastê.
Noite escura que esconde a paixão, a Musa, o amor que inspira o homem a continuar.
Noite escura que esconde o leite e o mel e a docura de vida.
É doído a cada um, se olhar no espelho despido das máscaras que usam para se proteger.
Mas sempre no final do túnel há luz para aqueles que escolhem seguir em frente, doa o que doer.
…. e tudo passa, sempre passa.
Bjs
Nosso [ e de quem mais chegar ] poeta e irmão muito Querido,
… é Quiron, é Xamã. Salva quem faz, salva quem lê !
Listen ,
Há uma substância nas coisas que não se perde
quando as asas da beleza lhe tocam.
Perdemô-la de vista, às vezes,
por entre as esquinas da vida;
mas ela persegue-nos com o seu desejo de permanência,
e vem contaminar-nos com a infecção divina
de uma febre de eternidade.
Os poetas… trabalham esta matéria.
Os seus dedos tiram o acaso
de dentro do que vem ao seu encontro,
e sabem que o improvável
se encontra no coração do instante,
num cruzamento de olhos
que a palavra do poema…
traduz.
————————————–
“Give me ecstasy, give me naked wonder, O my Creator!
Give birth to the Beloved in me, and let this lover die.
Let a thousand wrangling desires become one Love. ”
- Rumi
Um abraço muiiiiiito apertado,
Até já,
Bjs
Kingmob,
Suas poesias são incriveis…
Realmente, é como foi dito: Salva quem escreve e quem lê.
O tempo ordenha a vaca sagrada que alimentamos, elevando os nutrientes do conteúdo a cada dia, mais e mais.
Vc tem o dom.
O poeta
Vão dizer que não existo propriamente dito.
Que sou um ente de sílabas.
Vão dizer que eu tenho vocação pra ninguém.
Meu pai costumava me alertar:
Quem acha bonito e pode passar a vida a ouvir o som
das palavras
Ou é ninguém ou zoró.
Eu teria treze anos.
De tarde fui olhar a Cordilheira dos Andes que
se pendia nos longes da Bolívia
E veio uma iluminura em mim.
Foi a primeira iluminura.
Daí botei meu primeiro verso:
Aquele morro bem que entorta a bunda da paisagem.
Mostrei a obra pra minha mãe.
A mãe falou:
Agora você vai ter que assumir as suas
irresponsabilidades.
Eu assumi: entrei no mundo das imagens.
Manoel de Barros
Elogio do Poeta
Quando os homens viram os olhos do poeta,
Acharam em sua luz a luz do próprio olhar
E no seu sonho o próprio sonho refletido.
No ritmo de seu verso, então, reconheceram
A canção que cantariam, se soubessem cantar.
Helena Kolody
SER POETA
Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Áquem e de Além Dor!
É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!
É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhas de oiro e de cetim…
É condensar o mundo num só grito!
E é amar-te, assim, perdidamente…
É seres alma, e sangue, e vida em mim
E dize-lo cantando a toda a gente!
Florbela Espanca (1894-1930)
Bjs
Cacaso:
Madrigal para um amor
“A maior pena que eu tenho,
punhal de prata,
não é de me ver morrendo,
mas de saber quem me mata.”
(Cecília Meireles)
Luz da Noite Lis da Noite
meu destino é te adorar.
Serei cavalo marinho
quando a lua semi fátua
emergir de meu canteiro
e tu tiveres saído
em meus trajes de luar.
Serei concha privativa,
turmalina, carruagem,
Mas só se tu, Luz da Noite,
teu delírio nesta margem
já quiseres desaguar.
(Não te faças tão ingrata
meu bem! Quedo ferido
e meus olhos são cantatas
que suplicam não me mates
em adunco anzol de prata!)
E quanto nós nos amamos
em nossa vítrea viagem
de geada e de serragem
pelo meio continente!
Luz da Noite Lis da Noite
meu destino é te seguir.
Meu inábil clavicórdio
soluça pela raiz,
e já pareces tão farta
que nem sequer onde filtra
meu lado bom te conduz:
Minha amiga vou fremindo
embebido em tua luz.
Rio, 1964.
Absolutamente maravilhosos os comentários de vcs todos. E que a gente prossiga firme e forte no trabalho de se despir para que o que Blake chamou de “gênio poético” se manifeste plenamente.
Mob.
Festival Cecília Meireles, só os românticos podem suportar:
***
Que jamais seja um sofrimento
viciosamente cultivado
para transformar-se em momento
de verso, espúrio intento da arte.
Mas a arte que, a cumprir seu fado,
por força de sonho ou tormento
se volva num momento dado
coisa divina, imensa e à parte…
***
***
Noite
Úmido gosto de terra,
cheiro de pedra lavada
— tempo inseguro do tempo! —
sombra do flanco da serra,
nua e fria, sem mais nada.
Brilho de areias pisadas,
sabor de folhas mordidas,
— lábio da voz sem ventura! —
suspiro das madrugadas
sem coisas acontecidas.
A noite abria a frescura
dos campos todos molhados,
— sozinha, com o seu perfume! —
preparando a flor mais pura
com ares de todos os lados.
Bem que a vida estava quieta.
Mas passava o pensamento…
— de onde vinha aquela música?
E era uma nuvem repleta,
entre as estrelas e o vento.
***
***
EPIGRAMA Nº 8
Encostei-me a ti, sabendo bem que eras somente onda.
Sabendo que eras nuvem, depus a minha vida em ti.
Como sabia bem tudo isso, e dei-me ao teu destino frágil,
fiquei sem poder chorar quando caí.
***
***
EPIGRAMA Nº 11
A ventania misteriosa
passou na árvore cor-de-rosa,
e sacudiu-a como um véu,
um largo véu, na sua mão.
***
***
Foram-se os pássaros para o céu.
Mas as flores ficaram no chão.
Tu tens um medo
Acabar.
Não vês que acabas todo o dia.
Que morres no amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que te renovas todo dia.
No amor.
Na tristeza
Na dúvida.
No desejo.
Que és sempre outro.
Que és sempre o mesmo.
Que morrerás por idades imensas.
Até não teres medo de morrer.
E então serás eterno.
Não ames como os homens amam.
Não ames com amor.
Ama sem amor.
Ama sem querer.
Ama sem sentir.
Ama como se fosses outro.
Como se fosses amar.
Sem esperar.
Tão separado do que ama, em ti,
Que não te inquiete
Se o amor leva à felicidade,
Se leva à morte,
Se leva a algum destino.
Se te leva.
E se vai, ele mesmo…
Não faças de ti
Um sonho a realizar.
Vai.
Sem caminho marcado.
Tu és o de todos os caminhos.
Sê apenas uma presença.
Invisível presença silenciosa.
Todas as coisas esperam a luz,
Sem dizerem que a esperam.
Sem saberem que existe.
Todas as coisas esperarão por ti,
Sem te falarem.
Sem lhes falares.
Sê o que renuncia
Altamente:
Sem tristeza da tua renúncia!
Sem orgulho da tua renúncia!
Abre as tuas mãos sobre o infinito.
E não deixes ficar de ti
Nem esse último gesto!
O que tu viste amargo,
Doloroso,
Difícil,
O que tu viste inútil
Foi o que viram os teus olhos
Humanos,
Esquecidos…
Enganados…
No momento da tua renúncia
Estende sobre a vida
Os teus olhos
E tu verás o que vias:
Mas tu verás melhor…
…E tudo que era efêmero
se desfez.
E ficaste só tu, que é eterno.¨
***
Amigo.
Você realmente é um grande escritor.Te ouço desde 2005.Mas por favor.Não se deixe “enamorar” pelas inquietudes,dúvidas e pessimismo da vida.
Utilize seu grande talento para escrever sobre ALEGRIA.FELICIDADE.ÊXTASE.
O imposível só existe para quem acredita nele.Nós todos PODEMOS TUDO amigo.Exatamente como uma onda.Ela entre milhares de escolhas,se colapsa como ESCOLHER!
Viva Dionísio!!!!!!!!!
Obrigado Sem, não conhecia esse poema dela e to aqui sem saber se o coração bate no peito, na garganta ou na boca.
>Foram-se os pássaros para o céu.
Mas as flores ficaram no chão.
Tu tens um medo
Acabar.
Não vês que acabas todo o dia.
Que morres no amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que te renovas todo dia.
No amor.
Na tristeza
Na dúvida.
No desejo.
Que és sempre outro.
Que és sempre o mesmo.
Que morrerás por idades imensas.
Até não teres medo de morrer.
E então serás eterno.
Não ames como os homens amam.
Não ames com amor.
Ama sem amor.
Ama sem querer.
Ama sem sentir.
Ama como se fosses outro.
Como se fosses amar.
Sem esperar.
Tão separado do que ama, em ti,
Que não te inquiete
Se o amor leva à felicidade,
Se leva à morte,
Se leva a algum destino.
Se te leva.
E se vai, ele mesmo…
Não faças de ti
Um sonho a realizar.
Vai.
Sem caminho marcado.
Tu és o de todos os caminhos.
Sê apenas uma presença.
Invisível presença silenciosa.
Todas as coisas esperam a luz,
Sem dizerem que a esperam.
Sem saberem que existe.
Todas as coisas esperarão por ti,
Sem te falarem.
Sem lhes falares.
Sê o que renuncia
Altamente:
Sem tristeza da tua renúncia!
Sem orgulho da tua renúncia!
Abre as tuas mãos sobre o infinito.
E não deixes ficar de ti
Nem esse último gesto!
O que tu viste amargo,
Doloroso,
Difícil,
O que tu viste inútil
Foi o que viram os teus olhos
Humanos,
Esquecidos…
Enganados…
No momento da tua renúncia
Estende sobre a vida
Os teus olhos
E tu verás o que vias:
Mas tu verás melhor…
…E tudo que era efêmero
se desfez.
E ficaste só tu, que é eterno.
Ei cara!Fiz um comentário errôneo ao seu respeito.
Você é um maníaco-depressivo metido a pseudo-intelectual.Devora livros para preencher seu PROFUNDO VAZIO INTERIOR.Em resumo=Um babaca.Escrevo bem melhor que você.Mas envéz de querer ser adulado(A Falsa Modéstia é Um Requinte da Vaidade) como você em um blog,ajudo pessoas de todos os tipos de várias formas.Ah…..Continua se corroendo com a “Dúvida” a respeito da existência ou não da realidade????Bobo,você vive um sonho patético.Já tomei minha “pílula vermelha” a muito tempo…….
Babaca.Pseudo-intelectual maníaco-depressivo que necessita de adulações.Vou mudar meu IP e acabar com sua presunção ridícula.Tenha certeza disso.
Sem, se liga nesse aqui, pesquei por acaso hoje num livro da Cecília.
Canção
Nunca eu tivera querido
dizer palavra tão louca
bateu-me o vento na boca,
e depois no teu ouvido.
Levou somente a palavra,
deixou ficar o sentido.
O sentido está guardado
no rosto com que te miro,
neste perdido suspiro
que te segue alucinado,
no meu sorriso suspenso
como um beijo malogrado.
Nunca ninguém viu ninguém
que o amor pusesse tão triste.
Essa tristeza não viste,
e eu sei que ela se vê bem…
Só se aquele mesmo vento
fechou teus olhos, também…
Existe uma passagem que só a poesia pode abrir. É uma passagem escondida por brumas, propositalmente, para proteger o sagrado das bisbilhotices de um mundo leviano e suspenso pela razão. As lendas nos contam que esse é um lugar de fantasia, para sempre perdido aos dias que correm. Alguns conhecem esse lugar e o chamam pelo nome de Avalon… A razão profana o sagrado. O deus da razão é Apolo. E não resta dúvida de que ele, com a sua carruagem de fogo, tem poder para abrir os céus, de jogar luz e dissipar as brumas. Mas, do outro lado, o que aparece na margem iluminada, o que se espera não é o que é revelado. Apolo traz tanta claridade em seu bojo que com sua passagem espanta os passarinhos da noite, faz dissipar as sombras difusas, mas, na luz mais intensa, se formam outra sombra mais densa… Na outra margem, sol a pino, o que se revela é um mosteiro de arrependimentos, lugar para espiar culpas, de uma vida nunca inteiramente vivida, ao invés de uma vida por inteiro… Há coisas que só a penumbra pode revelar. E a poesia tem esse dom de turvar e de revelar por inteiro. São as últimas palavras que nos restam para ainda fazer uma derradeira magia e abrir as brumas e revelar Avalon. Que outras haveriam que não se deixem perturbar pela razão? O deus da poesia é Dionísio. Esse deus tolo, esperto, trapalhão, cruel, mais ridículo que o fauno mais torto, mais perturbador que Cupido, mais alegre que o vinho, mais encantador do que Eros… O único fiel ao feminino em um mundo de deuses misóginos. Dionísio comporta contradições e escandaliza o mundo apolíneo que não se permite dubiedades. O mundo de Apolo não se permite… Dionísio causa uma indisfarçada inveja em Apolo, que não compreende o entendimento que tem o deus do feminino e como as mulheres lhe respondem com igual fidelidade. Apolo também ama as mulheres, mas com ódio másculo no olhar, antes delas é mais dependente que amante. Não nos enganemos, que o supremo yang, dependente do frágil ying para realizar o Tao. Já Dionísio, é forte e pleno em si mesmo. O que as mulheres amam em Dionísio é que suas alegrias são canção e motivo de risos e de dança para ele. E quando Dionísio as possui, não se sentem anuladas, como com Apolo. Dionísio não tem essa necessidade… Mas quem pensa que as alegrias dionisíacas são somente puras alegrias, conhece da missa a metade ou não leu Nietzsche por inteiro. Não há como entrar nos reinos de Dionísio sem alegrias inteiras, que escondem dores inteiras… O mundo é um, como a falta é companheira da inteireza… Esse sentimento, muitas vezes contraditório, só encontramos em grandes poetas como Shakespeare, Fernando Pessoa, tantos outros e outras, mas poucos… “aquilo que chamamos rosa, com outro nome, teria igual perfume” É a poesia sem prozac. Um mundo de eternidades efêmeras, que os românticos compreendem de imediato, mesmo não sendo românticos, mas que tenham o espírito… Já aos que procuram apenas as figuras que o Sol ilumina, jamais conhecerão esse mundo de sombras… tênues. O mundo da poesia é um mundo vetado aos que não entendem a linguagem da alma ou que não tem laços com o vale de sombras e lágrimas que fica para trás antes da ascensão do espírito. O vale que permitiu e deu lastro para a ascensão segura do espírito, sem que ele retorne em queda rasante, qual Ícaro, como nos diz Hillman. Ou como disse um outro sábio não poeta velhinho suíço: “ninguém se ilumina projetando figuras de luz.” Poesia é antes de qualquer coisa uma linguagem de alma.
(fiquei sem tempo agora, mas volto aqui pra colocar uma poesia de Cecília e continuar essa conversa)
Kingmob,
Uma vez eu escrevi uma poesia em homenagem a Cecília Meireles, do tempo que eu escrevia poesias e que foi a fase mais difícil da minha vida, a minha noite mais escura. Pra vc ter uma idéia, do quanto eu gosto dela, só escrevi uma pra ela e outra pro Fernando Pessoa.
Quando eu disse que poesia tem o dom de salvar, no meu caso, não foi figura de linguagem, foi real. Nessas ocasiões a gente fica mesmo meio enamorado da morte e podemos até morrer… Não estou falando de suicídio, uma solução quero crer rara, mas, simbolicamente, muito mais comum do que se pensa, é morrermos na alma. Um perigo! brrr… Mas talvez seja só o nosso ascendente jupteriano que faça aumentar tudo o que toca, e de uma pequena alegria faça uma felicidade imensa e de um drama uma tragédia. Intensidade, teu nome é Zeus.
Mas quando a coisa é grande mesmo, vira noite escura.
Bom, eu resolvi seguir seu exemplo de generosidade e não me incomodar (porque me incomoda) com me expor. Vou deixar a timidez de lado, que nem tenho, e ao invés de deixar aqui uma poesia de Cecília, vou trocar pela que eu fiz pra ela. Singela e emocionada, coisa de poeta de primeira viagem, faz mileuma referências a vários de seus poemas, e principalmente a um longo que fala da memória dos elefantes. Pois Cecília conhecia a Índia e tinha afinidades mil com o oriente. Esse poema, dos elefantes, eu o li em um livro emprestado e nunca mais dei por ele, mas não deve ser difícil de achar e, se eu o encontrar, trago pra cá.
***
Pego o compasso, centro
em seu passo, e vou:
Vôo possuído de Cecília.
Caminho no desenho das cores
com a dona da pintura infinita.
Prima-dona desse encanto chamado
vida.
Vou porque quero.
Vôo voluntário.
Vou…
porque não há mais fazer
senão ir
com quem nos advinha
o sonho.
Ouço as notícias, Cecília.
Seus elefantes chegaram.
Lamento…
ser cumprido o tempo.
Cansados
seus paquidermes
leais ao dever
chegaram.
Todo o peso das novas
trazem nas patas
inexoráveis
mansas
lerdas
reais.
Ouço
e rio!
porque escuto…
um doce suspiro nas trombas
contando aventuras fantásticas
do vento – enamorado – sem rumo
da barca – amorosa – sem porto
esses dois loucos
deitados ao mar.
E ouço mais
nos olhos…
o brilho sano dos pequenos azuis
medíocres
frente corpo tamanho
mas poucos
para mirar sem conter
ensinando cegueira pra ver
segredos na eternidade abissal.
Ainda ouço e
sinto mais
na pele…
o roçar das dobras
do tempo
desejosa
do veludo da rosa
ansiando
em suas estrias
prender
na memória macia
a primavera perfumada do amor.
Silêncio…
O peito grita
– cravado o punhal.
A força do sangue
– batida na poesia.
Entranhas imersas
– fantasmas de breu.
Chama alma esperança
– velas içadas.
E as patas
todas
bolhas
– viagens reinventadas.
Tudo passa por nós
pela vida
por quantos cantos forem precisos:
“Deus te proteja Cecília!
Que tudo é mar… e mais nada.”
Está fazendo 9 anos essa poesia, eu fiz em março de 2000.
Credo! Que coisa mais que mais que linda, Sem!
Não só a Poesia, mas o seu coment lá de cima, que Tb é uma poesia!
Obrigado por isto! Foi lindo de ler!
Bjs
Sem,
Sua Alma se exterioriza em cada palavra de tudo o que voce escreve e jah escreveu aqui no blog, e deduzo que seja sua marca por onde passa. Apesar da sua timidez (que nem tem), nao foi um ato de se expor nao, mas um ato de “compartilhar” d’Alma.
Obrigado pela sua generosidade.
A poesia eh linda, porque parou de escreve-las?
Alias, se nao se importar, uma curiosidade, qual o seu tipo psicologio?
bjs
Sem e demais.
Este espaço está ficando cada dia mais bonito.
As poesias que leio são só as que vem aos meus olhos.
O que vcs apresentam aqui, coincidentemente tem sido na minha opinião, mágico.
Meninas, Elielson,
Tudo o que eu faço vem principalmente da intuição. Sou naquele teste Myers-Briggs: ENFP. Acho que me descreve bem, pois dos tipos extrovertidos é o mais introvertido… Além disso, creio que trafego bem entre racionalidade e sentimento… Mas não me fio totalmente em nenhum, porém, se for pra confiar em algum, primeiro o sentimento, pois eu acho que inventamos razão que justificam os sentimentos e nunca o contrário. O sentimento em si mesmo não precisa de nenhuma explicação. Só não sou metida e superficial como esse tipo costuma ser.
Eu sou modesta, como só um virginiano sabe ser, e brinco bastante, tenho uma espécie de humor negro que antes de tipo psicológico denuncia minha lua capricorniana.
E vcs??
Não faço mais poesias longas porque eu acho que não existe razão pra isso. Nenhuma razão sentimental… Fazer poesia é algo muito íntimo, pode ser desolador… Não sei se foi por covardia que eu abandonei esse barco, mas talvez tenha sido só uma adequação a um outro terreno mais firme, que pudesse me suportar ou onde eu encontrasse suporte. Seja como for, não vivo sem a poesia que vejo melhor dita nos versos de outros, se eu não escrevo mais, pelo menos desde aquela época acho que minha prosa se apoetou.
Este é lindo também, mas eu me pergunto; será alguém capaz de amar tanto tempo, uma vida; sem jamais ser correspondido?
http://www.youtube.com/watch?v=NhI9Z46bgDo&eurl=http%3A%2F%2Fmarysjukebox%2Ewordpress%2Ecom%2F2008%2F07%2F14%2Ftread%2Dsoftly%2F&feature=player_embedded
Have I the heaven’s embroidered cloths,
Enwrought with golden and silver light,
The blue and the dim and the dark cloths
Of night and light and the half-light,
I would spread the cloths under your feet:
But I, being poor, have only my dreams;
I have spread my dreams under your feet;
Tread softly, because you tread on my dreams.
as palavras: William Butler Yeats
as imagens: Heebok Lee
a música: Hajime Mizoguchi e Yoko Kanno – Escaflowne OST
a voz: David Winters
o resultado: comovente
Um curta-metragem inspirado na vida de W. B. Yeats, que viveu durante vinte anos uma história de amor não correspondido com a actriz Maud Gonne.
In 1889, William Butler Yeats met Maud Gonne, an actress and Irish revolutionary, who became his great love for the next 20 years. She was the inspiration of his life and his imagination. However, he never received her love in return.
W. B. Yeats ganhou o Prémio Nobel da Literatura em 1923.
Bjs
Fy, eu acho que o amor é um só, mas por alguma estranha razão, em alguns erra de face em face, enquanto em outros só encontra um rosto.
Bom, 3 em sequência de derreter pedra:
Quando eu não pensava em ti,
Os meus pés corriam ligeiros pela relva,
E os meus olhos erravam,
Distraídos e felizes,
Pela paisagem toda…
Quando eu não pensava em ti,
As minhas noites eram
Como o sono do céu, cheio de luar…
Quando eu não pensava em ti,
A minha alma era simples e quieta…
A minha alma era uma ave mansa,
De olhos fechados,
Na alta imobilidade de um ramo,
Quando eu não pensava em ti…
E agora
Ó eleito,
O meu passo demora,
Esperando pelos meus olhos,
Que procuram a tua sombra…
As minhas noites são longas, morosas,
Tão tristes,
Porque o meu pensamento
Põe-se a buscar -te,
E eu , sem ele, fico mais só…
Perderam-se os meus olhos
Entre as estrelas,
Entre as estrelas se perderam
As minhas mãos,
Nesta ansiedade de te alcançarem…
Eleito, ó eleito,
Por que foi que eu fiquei assim?
Por quê?
Desde o chão do meu corpo
Até o céu da minha alma,
Sou uma fumaça de perfume
Subindo em teu louvor…
……………..
Quando eu não pensava em ti,
Os meus olhos erravam,
Distraídos e felizes,
Pela paisagem toda.
(Cecília Meireles)
Quando eu não te tinha
Amava a Natureza como um monge calmo a Cristo.
Agora amo a Natureza
Como um monge calmo à Virgem Maria,
Religiosamente, a meu modo, como dantes,
Mas de outra maneira mais comovida e próxima …
Vejo melhor os rios quando vou contigo
Pelos campos até à beira dos rios;
Sentado a teu lado reparando nas nuvens
Reparo nelas melhor —
Tu não me tiraste a Natureza …
Tu mudaste a Natureza …
Trouxeste-me a Natureza para o pé de mim,
Por tu existires vejo-a melhor, mas a mesma,
Por tu me amares, amo-a do mesmo modo, mas mais,
Por tu me escolheres para te ter e te amar,
Os meus olhos fitaram-na mais demoradamente
Sobre todas as cousas.
Não me arrependo do que fui outrora
Porque ainda o sou.
(Alberto Caeiro)
Há certas almas como as borboletas
cuja fragilidade de asas não
resiste ao mais leve contato,
que deixam ficar pedaços pelos dedos que as tocam.
Em seu vôo de ideal, deslumbram olhos,
atraem a vista:
perseguem-nas, alcançam-nas,
detém-nas, mas quase sempre,
por saciedade, ou piedade,
libertam-nas outras vezes.
Elas, porém, não voam como dantes,
ficam vazias de si mesmas cheias de desalento…
Almas e borboletas,
não fosse a tentação das coisas rasas
o amor do néctar – o néctar do amor,
e pairaríamos nos cimos
seduzindo do alto admirando de longe!…
(Gilka Machado)
Tu não me tiraste a Natureza …
Tu mudaste a Natureza …
http://www.youtube.com/watch?v=qjegLO62dAE&feature=related
Bjs
Sem,
obrigado. Muito belos seus comentários. De verdade me fazem sonhar. E fazer o outro sonhar é bom =). Principalmente quando vc discorre sobre Dionísio. É uma aula, estimada professora. Sabe, são poucas e poucos os que merecem este nome de professor, de mestre. O mestre tem que ter uma bagagem, tem q ter o dom. Bem diferente de fazer os alunos repetirem as lições como papagaios, o professor com o dom sabe abrir uma grande brecha ou um rombo na alma do aluno. Abrir uma grande saudade no aluno. Quem teve o privilégio de ter ao menos uma professora ou professor assim, um mestre de amor, sabe a diferença enorme que isso faz. Mas o reino da técnica desalmada impera ainda, e a saudade tem que ser transmitida nas entrelinhas, furtivamente. Talvez seja melhor assim. Que o sentimento seja mais um “sem querer” do que algo que se entenda e se preveja.
Yeats:
QUANDO FORES VELHA
Quando fores velha, grisalha, vencida pelo sono,
Dormitando junto à lareira, toma este livro,
Lê-o devagar, e sonha com o doce olhar
Que outrora tiveram teus olhos, e com as suas sombras profundas;
Muitos amaram os momentos de teu alegre encanto,
Muitos amaram essa beleza com falso ou sincero amor,
Mas apenas um homem amou tua alma peregrina,
E amou as mágoas do teu rosto que mudava;
Inclinada sobre o ferro incandescente,
Murmura, com alguma tristeza, como o Amor te abandonou
E em largos passos galgou as montanhas
Escondendo o rosto numa imensidão de estrelas.
Rilke:
Que farás tu, meu Deus, se eu perecer?
Eu sou o teu vaso – e se me quebro?
Eu sou tua água – e se apodreço?
Sou tua roupa e teu trabalho
Comigo perdes tu o teu sentido.
Depois de mim não terás um lugar
Onde as palavras ardentes te saúdem.
Dos teus pés cansados cairão
As sandálias que sou.
Perderás tua ampla túnica.
Teu olhar que em minhas pálpebras,
Como num travesseiro,
Ardentemente recebo,
Virá me procurar por largo tempo
E se deitará, na hora do crepúsculo,
No duro chão de pedra.
Que farás tu, meu Deus? O medo me domina.
… de um poeta português:
um poeta
É no silêncio da noite que te procuro, quando ouço o ranger da lua e sei que, na queda de uma gota lunar, incendeia-se o vôo de uma gaivota.
Ela pousa, incandescente, na minha mão, derretendo a tundra de pele que cristaliza o sangue. A gaivota ausculta a palma da mão, debicando despojos de lágrimas incrustados nas linhas da dor. – Ela diz-me que há, entre os homens, herdeiros de luas apagadas, em trânsito pela vida em busca das costas do universo.
Confessou-me que só visita os insones, ou errantes, que se extraviam em noites de lua nova. “Porque a noite é negra para quem não esquece”, disse.
Falou-me de um homem-mito que errava pela cidade, em pleno dia, empunhando uma luz, porque “procurava o homem”. Reconheci Diógenes. A aridez da lua, disse a gaivota, deve-se aos homens que secaram no deserto do Mundo, porque aspiravam a oásis vedados. “Quando partires, também regressarás em partículas de insónia. Talvez aí, quando perderes o Mundo, o Mundo será teu”.
A lua progredia nos céus e cobria o mar com um véu alvo. Ao fundo, minúsculas luzes bruxuleantes denunciavam o afã dos pescadores. O vento soprava fraco, e a placidez da noite ruiu quando, na rua erma, um homem abriu os braços langues como velas frouxas, e descolava, com vagar, do chão, deixando resíduos de mágoa ardente que se evolaram em letras.
“Trouxe-o comigo -, revelou a gaivota. – Ele não existe como o vês. É o teu espectro.” Da asa, a gaivota extraiu uma pena bordada a letras. Parecia um poema. Tentei lê-lo, mas não reconhecia aquele alfabeto.
“É cedo. Aprenderás a ler as insônias e a deixá-las na anarquia do vento. Também aprenderás a reconhecer os homens que carregam uma luz natural, mas cegos por dentro. São esses os lunáticos, porque poucos percebem que noites negras são luminosas do outro lado. Porque a lua …nunca dorme.”
Um feixe de luz trespassou o céu escuro, aproximando-se da lua.
Plena, a gaivota explicou : – que, no início dos tempos, Deus, no enfado da solidão, amarrou sonhos num cinturão de asteróides, e desfez-se. Pensou que se suicidava, mas esticou a solidão por todo o cosmos. “Com essa fragmentação, povoou o universo e semeou germes de lunáticos nas grandes crateras da lua. Entre os homens, alguns têm nas veias asteróides que procuram superfícies brancas, para perpetuar a loucura de Deus.
Diz-se que esses homens, em noites de luar, incendeiam as mãos quando escrevem. E dessas labaredas nasce o sol, quando a lua parte.”
Voltámos a olhar para o céu quando a lua adquiria uma tonalidade rúbea. Em silêncio, contemplámos a combustão de umas quaisquer mãos distantes.
Quando a gaivota partiu, começou a chover. E as minhas mãos… fumegavam.
Vitor Souza
Nós não somos deuses, mas o que são os deuses sem nós?
Além de nós, quem lhes serviria de palco para encenarem suas peças? Não existindo os homens, quem imaginaria nas estrelas um destino? Quem lhes daria nomes e as amaria e nelas traçaria rotas ou contaria e sonharia histórias e lendas?
As estrelas no céu, sem os homens na terra, são apenas nuvens de gazes em explosões nucleares até o dia de se apagarem de vez… Partiriam como vieram, sem ninguém que lhes desse testemunho, sem ninguém para lhes sentir saudades.
A beleza não está no universo – que é belo, mas nos olhos dos homens que fabricam a beleza das formas que captam do universo. A geometria das linhas, as volutas, os números, estão aí desde sempre e não nos pertencem, independem de nós na sua completa natureza exterior e objetiva. O que pertence ao homem é só a beleza que ele inventa com os sentidos de sua imaginação.
Mas ai do homem que se enamorar das imagens que inventa, se acreditar que ele próprio é a imagem e não a sua invenção. O homem não foi feito para ser deus, mas para imaginar e inventar deus. O seu lugar no espaço é na terra testemunhando os contornos do divino no céu. Mesmo que o céu seja cá dentro, e infinito em todas aquelas coisinhas miudas, mesmo assim, é deus em eternidade no infinitamente pequeno e não no homem.
O homem que se recusa a ser palco para a comédia dos deuses, ele mesmo se transforma em ator e fantoche na própria vida: perde o bem mais precioso que é a sua individualidade, o seu direito inalienável de nascer e morrer só, sendo único no entreato.
O homem é bom quando devolve com generosidade o quinhão que amargamente recebe…
O homem é ponte, nunca sabe bem o que liga a quem ou o quê. Essa é a sua amargura, não pertencer a um destino certo, mas ser para servir passagem… Sabedoria é aprender a ser contente de servir ao indizível e dizer amém. Arre!
Eu não sei porque nós estamos aqui só pra testemunhar a algo que nunca será nosso. Porque nos deram o entendimento da grandeza sendo nós tão pequeninos. Porque temos noção do infinito e da eternidade sendo mortais. E toda a beleza que nasce do efêmero… O homem é a flor na escarpa florida intocada, nasce e morre num dia sem testemunhas, acaba como na tela do cinema o ciborg com a data vencida, em lágrimas, que se perdem na chuva… O homem é um contrasenso. Deus não teve piedade nenhuma quando nos criou só para ter quem o testemunhasse…
Epahêi, Sem,
Vc conhece isto?
CânticoNegro
http://www.youtube.com/watch?v=XV_iXZFPBCk&feature=related
“Vem por aqui” – dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: “vem por aqui!”
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali…
A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
- Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos…
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: “vem por aqui!”?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí…
Se Vim ao mundo foi,
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.
Como, pois sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?…
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os Abismos, as Torrentes, os Desertos…
Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios…
Eu tenho a minha Loucura!
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios…
Deus e o Diabo é que me guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.
Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: “vem por aqui”!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou…
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
- Sei que não vou por aí!
JOSÉ RÉGIO
Bjs
Conheço.
Eu acho que toda poesia é poesia. Que em nome de muitas humanidades já se enterrou e se perdeu mais vidas do que pra muita violência explícita. Quando a gente está ferido de morte, a única coisa capaz de nos libertar das garras da morte (da alma) é seguir desumanidades. Como se de um lugar muito profundo, só o profundo nos pudesse resgatar: um anjo da noite conhece o terreno, essa é a questão… Os anjos do dia nada podem contra as garras da morte. Essa é uma profunda certeza que tenho.
A morte vem de longe
Do fundo dos céus
Vem para os meus olhos
Virá para os teus
Desce das estrelas
Das brancas estrelas
As loucas estrelas
Trânsfugas de Deus
Chega impressentida
Nunca inesperada
Ela que é na vida
A grande esperada!
A desesperada
Do amor fratricida
Dos homens, ai! dos homens
Que matam a morte
Por medo da vida.
(Vinícius de Moraes)
E a morte amiga? Essa é minha:
Delicada amiga
Derradeira e vertente
Companheira na longa jornada
Salvadora das horas difíceis
Em seu paciente tecer
Na sua feminina esperteza
Aprendi
Nas águas da vida
Renascer
O eterno fluir da beleza
Sábia…
Mãe nessa lida
Escuta…
O que ontem era a foice
Cortando meus versos
Esquece
O que antes era o amargo tragar
Hoje o sabor já não mais apetece
Eu sei
Você sabe
Acontece…
A vida acontece!
Num dia…
A flor soluçando
É a poesia
No arrebol
Um raio de sol
Aquecendo
Atrevido
O amor
Beija-flor
Sorrindo
Num segundo
Todo sentido
Ah… minha sombra comprida…
Sábia mãe, morte amiga
Me ajuda a encarar
Sem cegar meu olhar
Olhar para a vida.
Sem,
Outro dia um amigo, num bate papo, disse a seguinte frase: – Não adianta… a Vida é mesmo abusada!
E fiquei pensando naquilo… e pensando… que frase incrível!
É uma destas sublimes verdades de botequim! –
Claro que a vida é “abusada!”
E, é incrível como ela se impõe; como é selvagem, indomável dentro e fora dagente.
E a morte, acho que sem dúvida, é sua mãe:
Sábia mãe, morte amiga
Me ajuda a encarar
Sem cegar meu olhar
Olhar para a vida.
Vc já leu as poesias da Bruna Lombardi? Eu gosto muito. Acho uma pena que sejam tão pouco divulgadas.
Estas críticas do Chico Buarque falam um pouco sobre ela: A poesia de Bruna Lombardi, pelas palavras de Chico Buarque, “é mais que dada, é escrachada, anda descomposta, morde, fuma de tudo, é áudio, é toque, é cheiro, pertence a um outro canal”. –
A poesia de Bruna Lombardi vai pelos caminhos tortos e sinceros, exalta o amor vivido, há pouca fuga, platonismo. Há toque, contato, fragrâncias, magia no ar, revelações do implícito, da sapiência que o amor ensina.
Neste poema abaixo, se trocarmos o tal Cavalo Doido pela palavra VIDA, talvez encontremos uma forma de senti-la nesta selvageria que a faz tantas vezes tão imprevisível, tão surpreendente, uma aventura a qual nos entregamos de olhos fechados: sem a menor dúvida, mas que desejamos e desejamos sempre. E, mesmo qdo, por momentos, não a desejamos, ela nos invade, abusada que é, …indomável; como um Corisco!
CORISCO
Vem pra cá cavalo doido
que eu vou te beber todo
atravessa esse meu fogo
de cabeça
Que cresça a tua vontade
que seja feita a tua vaidade
nessa terra de homens e mistério.
te quero
na relva molhada
me quero ver derrubada
me transpassa
a arco e flecha
lança e mordaça.
Te fecha o trinco
Te tranca
barra a passagem. Espanta
a última solidão que te ameaça
- que o ritual comece –
(ah se eu fosse se eu pudesse)
que esse tal de amor se faça.
Vem pra cá cavalo doido
que eu vou te fazer a festa
que eu vou conhecer a tua raça
Cigano. Mestiço.
Teu pulso arisco
o risco do teu jugo
o perigo de tua caça
eu arrisco.
Me laça que eu fico contigo
me cobre no dia da graça
Bruna Lombardi
Bjs
Fy,
gostei do cantrip:
Sábia mãe, morte amiga
Me ajuda a encarar
Sem cegar meu olhar
Olhar para a vida.
Foi vc que inventou? Vc usa nas suas feitiçarias? Uma vez eu escrevi um cantrip pra fazer uma graça esotérica lá no Malprg. Vou ver se acho e ponho aqui.
Cantrip para Hod/Hermes/Mercúrio/Thoth:
Esplendor
Verdade, magia, xadrez,
Engodo sagrado, mental.
Homem além do animal,
Clareza, valor, limpidez.
Encruzilhando entre os mundos
A sábia asa mercurial
Conduz a alma amada afinal
Ao seu imutável eu profundo
Verdade, magia, xadrez,
Engodo sagrado, mental.
Homem além do animal,
Clareza, valor, limpidez.
Duas serpentes já dançantes
Sibilam tocando os chocalhos,
Usando da vida os baralhos
na coluna amando em rompantes
Verdade, magia, xadrez,
Engodo sagrado, mental.
Homem além do animal,
Clareza, valor, limpidez.
Mob,
Não: foi a Sem: dá uma olhadinha lá em cima.
Encruzilhando entre os mundos
A sábia asa mercurial…
…isto sim é que é feitiço!
Bjs
eita, tá certo, me confundi. =D
Delirante esse poeta portuga hein ô fy.?!? É dolorido, revela a alma de forma dolorida. Gostei. Tem outro portuga que eu gosto bastante que é o Heberto Helder, conhece? Vou colocar algo dele aqui….
Mob,
Coloca sim.
Sabe, um dia vou fazer uma brincadeira:
- Há um tempo atrás, lí um texto dele; doído, até sinistro, mas mto lindo. No texto, ele coloca 2 personagens – além dele mesmo.
Toda a vez que leio, tento identificá-los, interpretá-los; – seria mto legal colocar e ouvir a interpretação de cada um.
Bjs
fy, eu topo o exercício.
- Vou colocar um outro texto dele, que me comove tb. ( não é o texto q eu falei).
Peraí,
Bjs
>No começo, conheceste o desafio de experienciar os sentidos e o fizeste. E agora a possibilidade morreu, porque estavas dentro do teu castelo, único, puro, inocente, voltado para teu Sol interior e era momento para tal
luramos, te agradeço ter colocado as cartas, fiquei com a leitura na cabeça… valeu!
Mob.
outro madrigal do Cacaso:
Madrigal para Cecília Meireles
Cacaso
(Antônio Carlos Ferreira de Brito)
Quando na brisa dormias,
não teu leito, teu lugar,
eu indaguei-te, Cecília:
Que sabe o vento do mar?
Os anjos que enternecias
romperam liras ao mar.
Que sabem os anos, Cecília,
de tua rota lunar?
Muitas transas arredias,
um só extremo a chegar:
Teu nome sugere ilha,
teu canto:um longo mar.
Por onde as nuvens fundias
a face deixou de estar.
Vida tão curta, Cecília,
a barco tragando o mar.
Que céu escuro havia
há tanto por te espreitar?
Que alma se perderia
na noite de teu olhar?
Sabemos pouco, Cecília,
temos pouco a contar:
Tua doce ladainha,
a fria estrela polar
a tarde em funesta trilha,
a trilha por terminar
precipita a profecia:
Tão curta é a vida, Cecília,
tão longa a rota do mar.
Em te saber andorinha
cravei tua imagem no ar.
Estamos quites, Cecília,
Joguei a estátua no mar.
A face é mais sombria
quanto mais se ensimesmar:
Tão curta a vida, Cecília,
tão negra a rota do mar.
Que anjos e pedrarias
para erguer um altar?
Escuta o coral, Cecília:
O céu mandou te chamar.
Com tua doce ladainha
(vida curta, longo mar)
proclames a maravilha.
Rio, 1964.
Este é para a irmã dele, qdo soube que ela estava grávida. Ele chama o nenem de Futuro.
OLHOS DE CRETA
Sabias, quando nasci, o que era ter um irmão?
Pedias a Deus para pôr um bebé na barriga da mãe, não era? Sim, eu sei. Ouvia-te, e ninguém sabia que já vos escutava, porque vivia nos vossos anseios mudos.
Na tua denguice de menina no centro do mundo, pedias algo que te possibilitasse mais diversão do que a vida curta das bonecas.
Eu cheguei e o mundo deslocou-se um pouco. Eu sei, eu sei. Também sei que abalou o teu débil lastro de criança, quando a minha aparição gerou uma dispersão inédita de atenção.
Quando nasci, Janeiro choveu nos meus olhos e Janus emoldurou-me num paradoxo. Deu-me olhos claros para ver tudo escuro.
Mas eu gosto de ter no olhar a cor do mar. Porque há tantos mares, mana, e dizem que “o mar de Creta por dentro é todo azul”.
Se quiseres, mana, levo-te a Creta e banhamos os olhos do futuro no mar azul. Sei que vou chorar quando o “futuro” nascer. Mas não serão necessárias as minhas lágrimas para pintar de limpidez os olhos que vais oferecer ao mundo. Eles verão tudo com a claridade pura do teu amor. Eles vão chorar a cor da terra prometida que nasceu no teu olhar. Eles vão formar arco-íris na tua dor molhada. Eles serão o prolongamento da tua eternidade.
Muitas vezes, a semente do que somos radica, algures, naquele tempo sem tempo, quando a baça consciência de nós tornava o outro uma coisa indefinida, mas indissociável.
Acho que sempre estive no teu colo, mana, e sinto o abismo como a fraqueza súbita dos teus braços de criança. “Não tires o bebé do berço”, alertava a mãe. Ignoraste a ordem e… ensinaste-me a cair. Quando bates à porta do meu exílio, mana, sou um bebé que não sabe pedir ajuda para se erguer. Só quando o “futuro” nascer serei homem, porque já não poderei esperar, no chão, pelos teus braços ocupados.
———————————
Foi premonitório, mana. A tua filha tem nos olhos safiras que os deuses esconderam em ilhas fora do tempo.
Os quiméricos ainda procuram essas ilhas e Tu, todos os dias, tens nos braços a certeza de que “os olhos dos deuses não se fecharam. Só dormem.”
Vitor Sousa
Bjs
Uma cifra de música….
Dentro de mim mora um anjo
(Sueli Costa e Cacaso)
Int.: Em G6/7 C7+ D7/9 G7+ Em
B7/Eb Em/D C#m5-/7 Am
Em G6/7 C7+ D7/9
Quem me vê assim cantando
D7+ G7+
Não sabe nada de mim
Em7
Dentro de mim mora um anjo
Que tem a boca pintada
Bm5-/7 E7
Que tem as unhas pintadas
Am7 Am/G
Que tem as asas pintadas
C#m7/9
Que passa horas à fio
F#5-/7 F#m7 B7
No espelho do toucador
Em7 G6/7 C7+ D7/9
Dentro de mim mora um anjo
G7+
Que me sufoca de amor
Em
Dentro de mim mora um anjo
Montado sobre um cavalo
A/C# C7+
Que ele sangra de espora
C#m7/9
Ele é meu lado de dentro
F#5-/7 F#m7 B7
Eu sou seu lado de fora
Em7 G6/7 C7+ D7/9
Quem me vê assim cantando
G7+
Não sabe nada de mim
Em7
Dentro de mim mora um anjo
Que arrasta suas medalhas
Bm5-/7 E7
E que batuca pandeiro
Am Am/G
Que me prendeu em seus laços
C#m7/9
Mas que é meu prisioneiro
F#5-/7 F7+
Acho que é colombina
E7/9- Eb7+
Acho que é bailarina
F#m B7 Em7
Acho que é brasileiro
Em B7/Eb Em/D C#m5-/7 Am7
Quem me vê assim cantando
D7/9 G7+
Não sabe nada de mim
Mob,
É linda! Pra quem quiser ouvir:
http://www.youtube.com/watch?v=18NoluX0JCw&feature=PlayList&p=34C5CA5B7364DB0D&playnext=1&playnext_from=PL&index=7
Aliás, pra falar de amor e de paixão, não nos falta poetas; – quem faria alguma coisa mais sentida do que isto:
http://www.youtube.com/watch?v=Fy8LsPj0Nw8
Bjs
viva la latinidad!!!!!!!!!!!!!!!!!
Em meio à tanta cultura alienígena quase parece que a gente não tem nenhuma. Nossa. Mas temos. E a que não temos, façamos…. nossa autoestima de brasileiros, latinos, sangues quentes, tem que de alguma forma conseguir.
Existe alguma coisa mais sofisticada que música brasileira? E nossa poesia e literatura não devem nada a ninguém e temos mais, isto sim, nomes para exportar. Um Guimarães Rosa, um Machado de Assis, Érico Veríssimo, Jorge Amado, Manuel Bandeira, Cecília Meireles, Carlos Drummond de Andrade, Tom Jobim, Vinícius de Moraes e pra citar um bem vivo ainda: Chico Buarque. Tantos nomes a acrescentar nessa lista…Elis, Quintana, Cartola, nomes que não acabam mais…
Tenho lido pouca coisa dos novos autores brasileiros, só alguma coisa através da internet. Por isso mesmo eu sei que está surgindo uma nova geração de literatos, músicos, cantoras, poetas brasileiros, que vão dar o que falar…
Kingmob, eu adorei a sua poesia mercurial.
Ontem eu fiquei com uma música o dia inteiro na cabeça. Linda essa música, composição do Lenine e Carlos Rennó, sempre me volta quando preciso lembrar que sou humana, falível, mas que vale a pena estar vivo para viver a vida exatamente como ela é. O nome da música é VIVO, espero que vcs conheçam, tenho uma versão em áudio no computador que o Lenine canta com a Fioerella Manoia, uma cantora romântica italiana e que já gravou músicas com o Caetano. Nessa versão, a parte dela está em italiano, o que traz um charme a mais…
A letra:
Precário, provisório, perecível;
Falível, transitório, transitivo;
Efêmero, fugaz e passageiro
Eis aqui um vivo, eis aqui um vivo!
Impuro, imperfeito, impermanente;
Incerto, incompleto, inconstante;
Instável, variável, defectivo
Eis aqui um vivo, eis aqui…
E apesar…
)
Do tráfico, do tráfego equívoco;
Do tóxico, do trânsito nocivo;
Da droga, do indigesto digestivo;
Do câncer vil, do servo e do servil; (eu sempre cantei do câncer vir do cerne do ser vivo)
Da mente o mal doente coletivo; (e da mente o mal do ente coletivo
Do sangue o mal do soro positivo;
E apesar dessas e outras…
O vivo afirma firme afirmativo
O que mais vale a pena é estar vivo!
É estar vivo
Vivo
É estar vivo
Não feito, não perfeito, não completo;
Não satisfeito nunca, não contente;
Não acabado, não definitivo
Eis aqui um vivo, eis-me aqui.
Esse festival de poesias está cada vez melhor. Poesias e pensamentos poéticos…
O entusiasmo de vcs faz com que eu aos poucos relembre as coisas que eu sentia na época que escrevinhava… quando isso era uma verdadeira necessidade. Nunca fui de divulgar e publicar minhas poesias, apenas deixei algumas registradas em arquivo e não sobraram mais do que 30. Não sei se foi por vergonha ou resguardo que nunca mostrei pra quase ninguém, uma aqui e outra acolá para alguns pouquíssimos. Só uma pessoa leu todas as minhas poesias e nem foi porque eu quis, foi porque ela abriu o arquivo. Eu acho que as fiz num claro momento de introversão. Mas como parece que elas estão todas grudadas num rosário, basta puxar uma conta, que todas as outras desfilam em seguida… Agora o momento parece ser de extroversão. Vou então deixar com vcs aquela que eu considero a minha melhor poesia, pelo menos se o critério for paixão. Quer dizer, eu ela poderia ser melhorada por um verdadeiro poeta, mas o que eu acho bom é o esqueleto, vá lá, exercício de extroversão:
Costumava vir aqui
Itinerante borboleta
Sugar poesia
Nunca ninguém se
Importou e por que
Importaria?
Poeta nasceu
Pra dar e
Ser flor
Poeta nasceu
Pra ser
Alimento
Tudo estava bem no
Jardim e assim
Continuaria
Não fosse a
Borboleta encontrar
A Poesia
Sim é isso
Uma linda flor que
Um poeta cria
Dum farto
Jardim de
Um sentimento
E agora
Borboleta
E agora?
Cativa do fascínio de
Um único aroma
Ainda voa?
Embriagada do néctar de
Um único sabor
Estás tonta?
Presa duma cor
Entre múltiplas formas
Estás cega?
Efêmera borboleta
Efêmera flor
Eterno jardim
Se liga nessa, Sem, dos Secos e Molhados:
Sangue Latino
Secos & Molhados
Composição: João Ricardo / Paulinho Mendonça
Jurei mentiras e sigo sozinho, assumo os pecados
Os ventos do norte não movem moinhos
E o que me resta é só um gemido
Minha vida, meus mortos, meus caminhos tortos,
Meu sangue latino, minha alma cativa
Rompi tratados, traí os ritos
Quebrei a lança, lancei no espaço
Um grito, um desabafo
E o que me importa é não estar vencido
Minha vida, meus mortos, meus caminhos tortos,
Meu sangue latino, minha alma cativa
E essa?
À Palo Seco
Belchior
Se você vier me perguntar por onde andei
No tempo em que você sonhava.
De olhos abertos, lhe direi:
- Amigo, eu me desesperava.
Sei que, assim falando, pensas
Que esse desespero é moda em 73.
Mas ando mesmo descontente.
Desesperadamente eu grito em português:
- Tenho vinte e cinco anos de sonho e
De sangue e de América do Sul.
Por força deste destino,
Um tango argentino
Me vai bem melhor que um blues.
Sei, que assim falando, pensas
Que esse desespero é moda em 73.
E eu quero é que esse canto torto,
Feito faca, corte a carne de vocês.
sem,
o maior defeito do Brasil não é o Brasil. O maior defeito do Brasil é a falta de autoestima dos brasileiros. É não ter ancoragem na própria cultura. Não é o Brasil que é colônia ainda, é a cabeça dos brasileiros que é passivamente colonizada o tempo todo. Aí chega um Cecília e um Guimarães Rosa que não ficam em nada devendo a Joyce ou T. S. Eliot e acaba com um possível embasamento a essa mentalidade colonial. Vem essa pseudointelligentsia “brasileira” concordar com os europeus e americanos no TOTAL descaso à cultura brasileira e latinoamericana e certamente de outras partes do mundo.
A gente aqui no Brasil apanha, leva na cara e depois agradece como se estivessem fazendo um favor para gente. O inglês é chique, é cool, mimetizamos porcamente os cacoetes de europeus e americanos. É mais chique visitar Paris, France e New York, New York do que ir pro pantanal, nordeste, e sul. Não importa se nas nossas escolas a gente não teve o currículo básico para entender a cultura deles, o que importa é que de alguma forma é preciso sair desta merda nas nossas cabeças visitando o “glamour” dos outros povos.
O brasileiro não tem identidade, a gente dá de mão beijada o que é nosso, o que não pode dar. E agradece: obrigado, eu não me importo mesmo. Penso que não vamos ser brasileiros de verdade enquanto não tivermos uma identidade nacional sólida. Isso tem que crescer, seja através da cultura, da arte do que for. Lá nos EUA vc vê uma bandeira americana em cada esquina. E aqui? Vc vê uma bandeira americana em cada esquina. Não é demonizar os caras não, mas peraí tudo tem limite…. não é porque o caras tem mais grana que eles são melhores que nós… mas o pressuposto básico da classe média-alta aqui é justamente esta… que eles são melhores porque tem mais grana. Então vamos copiá-los
Sabe o que eu acho? Que isto é falta de imaginação. É falta de amor verdadeiro. A língua é linda e riquíssima, as cores são brilhantíssimas, as mulheres são inigualáveis. O que que falta pro brasileiro? Tudo e nada: autoestima e identidade. Temos que começar do quase zero. É possível? Se não for possível não vale a pena estar vivo, seria melhor esta morto.
Pelo sonho é que vamos (Sebastião da Gama)
Pelo sonho é que vamos,
comovidos e mudos.
Chegamos? Não chegamos?
Haja ou não haja frutos,
pelo sonho é que vamos.
Basta a fé no que temos.
Basta a esperança naquilo
que talvez não teremos.
Basta que a alma demos,
com a mesma alegria,
ao que desconhecemos
e ao que é do dia a dia.
Chegamos? Não chegamos?
-Partimos. Vamos. Somos.
Sebastião da Gama
Então, eu sinto o mesmo que vc…
Eu tenho orgulho de ser brasileira e não quero que isso seja entendido como um nacionalismo besta, mas… enquanto o mundo não for uma só nação e geopoliticamente ainda formos divididos em países – e o nosso é o Brasil, continente América do Sul, língua portuguesa – vamos cultuar o que é nosso que equivale dizer viver a própria cultura.
Não quis falar antes das coisas ruins, mas o que mata no Brasil, eu penso, é que ainda não nos livramos da mentalidade escravagista… ainda somos um povo fundamentalmente dividido entre Casa Grande e Senzala, a primeira com um pé na Europa (e outro nos EUA), a segunda com um pé na África. Somos um povo dividido. Advém que o trabalho braçal é desprezado, ter padrinho é ser “esperto”, de que se vale mais a família em que se nasce e menos o fruto do próprio trabalho. Acho inclusive que a corrupção é decorrência desse pensamento, de que alguns “podem” mais do que outros, justificando o famigerado “direito inalienável” de todo brasileiro de dar um “jeitinho”. No mal sentido, é claro, que é passar por cima do espaço do outro… Essa é a mentalidade que nos faz ainda uma nação muito pequena, e é geral, pertence a todas as classes… do chofer à madame, do peão de obra ao engenheiro, do bóia-fria ao agricultor… todos entendem o “jeitinho” e fazem vistas grossas, sabendo que no lugar do outro fariam o mesmo… toleramos os políticos corruptos nas grandes esferas do poder porque nós tb somos corruptos em nossas pequenas esferas… Cículo vicioso é o que é.
Mas sinceramente eu acho que estamos melhorando, sinto no ar um clima de brasilidade boa, mais difundido hoje do que era há 20 anos… e com certeza mais do que era há 50… 100 anos então, imagina como era o Brasil no começo do século vinte… mudando nós estamos, aparentemente adquirindo uma consciência nacional. (eu acho que não tenho nenhum ideal pra nação, só vontade de ficar por aqui mesmo)
nunca cometo o mesmo erro
duas vezes
já cometo duas três
quatro cinco seis
até esse erro aprender
que só o erro tem vez
DESENCONTRÁRIOS
Mandei a palavra rimar,
ela não me obedeceu.
Falou em mar, em céu, em rosa,
em grego, em silêncio, em prosa.
Parecia fora de si,
a sílaba silenciosa.
Mandei a frase sonhar,
e ela se foi num labirinto.
Fazer poesia, eu sinto, apenas isso.
Dar ordens a um exército,
para conquistar um império extinto.
Paulo Leminski
Nação
(João Bosco, Paulo Emílio & Aldir Blanc)
Dorival Caymmi falou para Oxum:
com Silas tô em boa companhia.
O Céu abraça a Terra,
deságua o Rio na Bahia.
Jeje
minha sede é dos rios
a minha cor é o arco-íris
minha fome é tanta
planta florimã da bandeira
a minha sina é verdeamarela
feito a bananeira.
Ouro cobre o espelho esmeralda
no berço esplêndido,
a floresta em calda,
manjedoura d’alma
labarágua, sete queda em chama,
cobra de ferro, Oxum-Maré:
homem e mulher na cama.
Jeje
tuas asas de pomba
presas nas costas
com mel e dendê
aguentam por um fio.
Sofrem
o bafio da fera,
o bombardeiro de caramuru,
a sanha de Anhanguera.
Jeje
tua boca do lixo
escarra o sangue
de outra hemoptise
no canal do Mangue.
O uirapuru das cinzas chama:
rebenta a louca, Oxum-Maré:
dança em teu mar de lama.
Nossa, Sem, não é lindo?
E Mob: mto bem dito, tudo ver da de.
Eu acredito sim que a arte não tem fronteiras e que seja mesmo a verdadeira linguagem universal. Mas… é preciso que ela exista. E nunca entendi esta timidez da nossa. Logo a nossa que acontece nesta exuberância toda que é nosso Brasil.
… Mas, voltando um pouquinho no tempo; vcs esqueceram do nosso “Poeta do Mar”, logo o mar;que eu amo tanto, : Vicente de Carvalho. – Fiz um trabalho sobre ele, no colegial; e me apaixonei:
O prefácio/ apresentação e crítica é feito por Euclides da Cunha [ outro gênio, mas mto estranho!!!! - por sinal.]:
Serra do Mar:
EC: passaria mil anos sobre a Serra do Mar
..Negra, imensa, disforme,
..Enegrecendo a noite…
indiferente e inútil.
EC: Para no-la definir e no-la agitar sem abandonar a realidade, mostrando-no-la vivamente monstruosa, a arrepiar-se, a torcer-se nas anticlinais, encolhendo-se nos vales, tombando nos grotões, ou escalando as alturas nos arrancos dos píncaros arremessados, requer-se a intuição superior de um poeta capaz de ampliar, sem a deformar, uma verdade rijamente geológica, refletindo num minuto a marcha milenar das causas geotectônicas que a explicam. Vemo-la na escultura destes versos:
Na sombra em confusão do mato farfalhante
Tumultuando, o chão corre às soltas, sem rumo.
Trepa agora alcantis por escarpas a prumo,
Erriça-se em calhaus, bruscos como arrepios;
Mais repousado, além, levemente se enruga
Na crespa ondulação de cômoros macios;
Resvala num declive; e logo, como em fuga
Precipite, através da escuridão noturna,
Despenha-se de chofre ao vácuo de uma furna.
Do fundo dos grotões outra vez se subleva,
Surge, recai, ressurge… E, assim, como em torrente,
Furiosa, em convulsões, vai rolando na treva
Despedaçadamente… indefinidamente.
EC: É a realidade maior – vibrando numa emoção. Este chão que tumultua, e corre, e foge, e se crispa, e cai, e se alevanta, é o mesmo chão que o geólogo denomina “solo perturbado” e inspira à rasa, à modesta, à chaníssima topografia, a metáfora garbosa dos “movimentos do terreno.”
E do Mar:
EC: – Digamos, porém, desde logo, que em todo este lúcido panteísmo não é a floresta e a montanha que mais atraem o poeta. É o mar. A Vicente de Carvalho não lhe basta o pintar-nos
…o mar criado às soltas
Na solidão, e cuja vida
Corre, agitada e desabrida,
Em turbilhões de ondas revoltas…
ou quando ele, tempesteiando,
A uivar, a uivar dentro da sombra
Nas fundas noutes da procela
braceja com os ventos desabalados, e, recebendo de instante em instante a
..cutilada de um corisco,
rebela-se, e
impando de ousadia
Pragueja, insulta, desafia
O céu, cuspindo-lhe a salsugem…
EC: – Apraz-se antes de no-lo mostrar, nas “Sugestões do Crepúsculo”, com a melancolia soberana que por vezes o invade e lhe torna mais compreensível a grandeza, no vasto nivelamento das grandes águas tranqüilas, onde se nos dilata de algum modo a impressão visual da impressão interior e vaga do Infinito…
Porque
Ao pôr-do-sol, pela tristeza
Da meia-luz crepuscular,
Tem a toada de uma reza
A voz do mar.
Aumenta, alastra e desce pelas
Rampas dos morros, pouco a pouco,
O ermo de sombra, vago e oco,
Do céu sem sol e sem estrelas.
Tudo amortece, e a tudo invade
Uma fadiga, um desconforto,
Como a infeliz serenidade
Do embaciado olhar de um morto.
Domado então por um instante
Da singular melancolia
De entorno, apenas balbucia…
A voz piedosa do gigante.
Toda se abranda a vaga hirsuta,
Toda se humilha, a murmurar…
Que pede ao céu que não a escuta
A voz do mar?
. . . . . . . .
Escutem bem… Quando entardece,
Na meia-luz crepuscular,
Tem a toada de uma prece
A voz tristíssima do mar…
EC: – Mais longe, quando o poeta escuta a grande voz do mar, “quebrada de onda em onda”, – quando o mar exclama:
“Lua! Eu sou a paixão, eu sou a vida, eu te amo!
Paira, longe, no céu, desdenhosa rainha…
Que importa?
O tempo é vasto, e tu, bem que eu reclamo,
Um dia… serás minha…
Essa é clássica, ou melhor, romântica…=D Casimiro de Abreu.
MEUS OITO ANOS
Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!
Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras
À sombra das bananeiras,
Debaixo dos laranjais!
Como são belos os dias
Do despontar da existência!
— Respira a alma inocência
Como perfumes a flor;
O mar é — lago sereno,
O céu — um manto azulado,
O mundo — um sonho dourado,
A vida — um hino d’amor!
Que aurora, que sol, que vida,
Que noites de melodia
Naquela doce alegria,
Naquele ingênuo folgar!
O céu bordado d’estrelas,
A terra de aromas cheia
As ondas beijando a areia
E a lua beijando o mar!
Oh! dias da minha infância!
Oh! meu céu de primavera!
Que doce a vida não era
Nessa risonha manhã!
Em vez das mágoas de agora,
Eu tinha nessas delícias
De minha mãe as carícias
E beijos de minha irmã!
Livre filho das montanhas,
Eu ia bem satisfeito,
Da camisa aberta o peito,
— Pés descalços, braços nus
— Correndo pelas campinas
A roda das cachoeiras,
Atrás das asas ligeiras
Das borboletas azuis!
Naqueles tempos ditosos
Ia colher as pitangas,
Trepava a tirar as mangas,
Brincava à beira do mar;
Rezava às Ave-Marias,
Achava o céu sempre lindo.
Adormecia sorrindo
E despertava a cantar!
…………………………..
Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!
— Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras
À sombra das bananeiras
Debaixo dos laranjais!
Fy,
>Porque
Ao pôr-do-sol, pela tristeza
Da meia-luz crepuscular,
Tem a toada de uma reza
A voz do mar.
É isso. Bom gosto não de discute… =D
São duas flores unidas,
São duas rosas nascidas
Talvez do mesmo arrebol,
Vivendo no mesmo galho,
Da mesma gota de orvalho,
Do mesmo raio de sol.
Unidas, bem como as penas
Das duas asas pequenas
De um passarinho do céu…
Como um casal de rolinhas,
Como a tribo de andorinhas
Da tarde no frouxo véu.
Unidas, bem como os prantos,
Que em parelha descem tantos
Das profundezas do olhar…
Como o suspiro e o desgosto,
Como as covinhas do rosto,
Como as estrelas do mar.
Unidas… Ai quem pudera
Numa eterna primavera
Viver, qual vive esta flor.
Juntar as rodas da vida,
Na rama verde e florida,
Na verde rama do amor!
(Castro Alves)
Tenho razão de sentir saudade,
tenho razão de te acusar.
Houve um pacto implícito que rompeste
e sem te despedires foste embora.
Detonaste o pacto.
Detonaste a vida geral, a comum aquiescência
de viver e explorar os rumos de obscuridade
sem prazo sem consulta sem provocação
até o limite das folhas caídas na hora de cair.
Antecipaste a hora.
Teu ponteiro enlouqueceu, enlouquecendo nossas horas.
Que poderias ter feito de mais grave
do que o ato sem continuação, o ato em si,
o ato que não ousamos nem sabemos ousar
porque depois dele não há nada?
Tenho razão para sentir saudade de ti,
de nossa convivência em falas camaradas,
simples apertar de mãos, nem isso, voz
modulando sílabas conhecidas e banais
que eram sempre certeza e segurança.
Sim, tenho saudades.
Sim, acuso-te porque fizeste
o não previsto nas leis da amizade e da natureza
nem nos deixaste sequer o direito de indagar
porque o fizeste, porque te foste
(Carlos Drummond de Andrade)
É assim que te quero, amor,
assim, amor, é que eu gosto de ti,
tal como te vestes
e como arranjas
os cabelos e como
a tua boca sorri,
ágil como a água
da fonte sobre as pedras puras,
é assim que te quero, amada,
Ao pão não peço que me ensine,
mas antes que não me falte
em cada dia que passa.
Da luz nada sei, nem donde
vem nem para onde vai,
apenas quero que a luz alumie,
e também não peço à noite explicações,
espero-a e envolve-me,
e assim tu pão e luz
e sombra és.
Chegastes à minha vida
com o que trazias,
feita
de luz e pão e sombra, eu te esperava,
e é assim que preciso de ti,
assim que te amo,
e os que amanhã quiserem ouvir
o que não lhes direi, que o leiam aqui
e retrocedam hoje porque é cedo
para tais argumentos.
Amanhã dar-lhes-emos apenas
uma folha da árvore do nosso amor, uma folha
que há de cair sobre a terra
como se a tivessem produzido os nosso lábios,
como um beijo caído
das nossas alturas invencíveis
para mostrar o fogo e a ternura
de um amor verdadeiro.
(Pablo Neruda)
Eu queria trazer-te uns versos muito lindos
colhidos no mais íntimo de mim…
Suas palavras
seriam as mais simples do mundo,
porém não sei que luz as iluminaria
que terias de fechar teus olhos para as ouvir…
Sim! Uma luz que viria de dentro delas,
como essa que acende inesperadas cores
nas lanternas chinesas de papel!
Trago-te palavras, apenas… e que estão escritas
do lado de fora do papel… Não sei, eu nunca soube o que dizer-te
e este poema vai morrendo, ardente e puro, ao vento
da Poesia…
como
uma pobre lanterna que incendiou!
(Mario Quintana)
O pastor amoroso perdeu o cajado,
E as ovelhas tresmalharam-se pela encosta,
E de tanto pensar, nem tocou a flauta que trouxe para tocar.
Ninguém lhe apareceu ou desapareceu.
Nunca mais encontrou o cajado.
Outros, praguejando contra ele, recolheram-lhe as ovelhas.
Ninguém o tinha amado, afinal.
Quando se ergueu da encosta e da verdade falsa, viu tudo:
Os grandes vales cheios dos mesmos verdes de sempre,
As grandes montanhas longe, mais reais que qualquer sentimento,
A realidade toda, com o céu e o ar e os campos que existem,
estão presentes.
(E de novo o ar, que lhe faltara tanto tempo, lhe entrou fresco
nos pulmões)
E sentiu que de novo o ar lhe abria, mas com dor,
uma liberdade
no peito.
(Alberto Caeiro)
Outros terão
Um lar, quem saiba, amor, paz, um amigo.
A inteira, negra e fria solidão
Está comigo.
A outros talvez
Há alguma coisa quente, igual, afim
No mundo real. Não chega nunca a vez
Para mim.
“Que importa?”
Digo, mas só Deus sabe que o não creio.
Nem um casual mendigo à minha porta
Sentar-se veio.
“Quem tem de ser?”
Não sofre menos quem o reconhece.
Sofre quem finge desprezar sofrer
Pois não esquece.
Isto até quando?
Só tenho por consolação
Que os olhos se me vão acostumando
À escuridão.
(Fernando Pessoa)
Se procurar bem você acaba encontrando.
Não a explicação (duvidosa) da vida,
Mas a poesia (inexplicável) da vida.
(Carlos Drummond de Andrade)
Encontro de Patativa do Assaré com a alma de Zé Limeira
Certa vez andando sorrindo e contente
cantando repente pelo mundo afora
ouvi uma voz bonita e sonora
dizendo: demora que eu já vou na frente
o dente é a língua e a língua é o dente
o K é o J e o J é o K
gambá é raposa e raposa é gambá
Raimundo é Francisco e Francisco é Raimundo
o mundo é o céu e o céu é o mundo
nos dez de galope da beira mar
Patativa:
– Ô voz atrivida me digas quem é
que eu sou do Assaré o gigante afamado,
poeta famoso atende o meu brado
e você vem agora pra bater-me o pé,
no tema do verso não perdi a fé
meu barco de rima vive a navegar
porém me respondas não queiras negar,
pois já não agüento este teu insulto
ouço a tua voz e não vejo o teu vulto
nos dez de galope da beira do mar
Zé Limeira:
– Sou o ispirito forte de José Limeira
Serra do Texêra foi meu naturá
foi lá que eu nasci eu nasci foi lá
com faca de pedra e machado de cera
quando eu bato na água levanta a poêra
que o fogo rebenta do lado de lá,
você não tá dando nem deu e nem dá
a tua façanha é quem te condena
eu hoje te pelo e não dêxo uma pena
nos dez de galope da bêra do má
Patativa:
– Cantador Limeira engula a saliva
que eu sou o Patativa o grande poeta
não quero fofoca nem quero indireta
sou ave liberta e não serei cativa
cantador valente me vendo se esquiva
porque não se atreve comigo cantar
ninguém faz discurso no meu patamá
eu mando e comando no grande Nordeste
sou bravo e sou forte sou cabra da peste
nos dez de galope da beira do mar
Zé Limeira:
– Tá no mamêlero tá na jurubeba
te móio as pereba com água de soda
a tua cantiga muito me incomoda
vai criar juízo cantador jereba
teus pés de pato teus óio é de peba
remexa pra lá e remexa pra cá
e agüente os bizôro do meu mangangá
comigo é no duro é fogo é pimenta
Patativa véio você não me agüenta
nos dez de galope da bêra do má
Patativa:
– Eu tenho a conduta de cantador forte
canto por esporte e ganho a partida
deu tapa na morte e pontapé na vida
vou do norte ao sul e vou do sul ao norte
a minha bravura não há quem suporte
já domei pantera, leão e jaguar
com tua zuada não vou me calar
ainda que traga trovão e curisco
eu não terei medo nem correrá risco
nos dez de galope da beira do mar
Zé Limeira:
– No lugá que eu canto véio não rismunga
não bota calunga nem bota buneco
teu açude eu rombo e teu rio eu seco
no lugá que eu chego sou dono e sou dunga
te rasgo a camisa teu chorte e teu sunga
e um banho de fogo eu mando te dá
te boto de chife do boi na misera
o que tá fartando você não intera
nos dez galope da bêra do má
E vai longe…….
(Patativa do Assaré. Encontro de Patativa do Assaré com a alma de Zé Limeira.Ed. Prop. Patativa do Assaré (19??))
Se a gente tem alma é pra sentir:
http://www.youtube.com/watch?v=dRUdypb9prQ&feature=related
Samba em Prelúdio
Composição: Baden Powell e Vinícius de Moraes
Eu sem você não tenho porque,
porque sem você não sei nem chorar
Sou chama sem luz jardim sem luar,
luar sem amor, amor sem se dar
E eu sem você sou só desamor
um barco sem mar um campo sem flor
Tristeza que vai tristeza que vem
Sem você meu amor eu não sou ninguém
Ah! que saudade que vontade de ver renascer nossa vida
Volta querido os meus braços precisam dos teus
Teus abraços precisam dos meus,
Estou tão sozinha tenho os olhos cansados de olhar para o além
Vem ver a vida
Sem você meu amor eu não sou ninguém
Se agente tem alma é pra sentir….
Mob,
Esta é pra sentir cada palavra, nem vou colocar a letra; pq o violão vai fazer falta:
http://www.youtube.com/watch?v=wb4RauhteFA
Bjs