Os ensinamentos sufis podem ser transmitidos em rodas sagradas, onde alguém conta uma história pra começar. São metáforas simples, como as que podemos ouvir de um caboclo, exu ou preto-velho… Têm tantos níveis de compreensão quanto formos capazes de alcançar. Ninguém replica de imediato, sempre se reflete primeiro. Quando alguém tem uma pergunta ou um comentário , qualquer coisa que acha que deva ser compartilhada, a pessoa se manifesta. Uma vez lançada a história ou o comentário, eles não pertencem mais a voce. Voce dá (doa) a sua impressão. E fica livre pra aprender o que floresce, sem precisar defender suas idéias, porque não são mais suas….
E foi assim que aprendi essa linda história:
O Conto das Areias
Um rio, vindo da sua fonte de montanhas distantes, ia passando por todas as paisagens até alcancar finalmente as areias do deserto. Assim como ele havia ultrapassado todas as outras barreiras de seu caminho, o rio tentou atravessar mais esta, mas ele descobriu que assim que ele corria pelas areias, suas águas desapareciam.
O rio no entanto, estava convencido que o seu destino era cruzar o deserto, mas ainda assim, não havia jeito. Uma voz escondida, vinda do próprio deserto, sussurou: “o Vento pode atravessar o deserto, então o rio também pode”.
O rio se opôs. Ele estava se lançando nas areias e apenas sendo absorvido: o vento podia voar, e era por isso que ele podia cruzar o deserto.
‘Empurrando-se pela maneira como você está acostumado, você não pode atravessar. Ou você desaparecerá ou se tornará um pântano. Você deve permitir que o vento o carregue ao seu destino. ‘
Mas como isso poderia acontecer? ‘Permitindo a você mesmo que seja absorvido pelo vento.’
A idéia nao era aceitável para o rio. Além do mais ele nunca havia sido absorvido antes. Ele não queria perder sua individualidade. E uma vez a perdendo, como alguém poderia saber que ela poderia um dia ser recuperada?
‘O vento’, disse a areia, ‘faz esta função’. Ele pega a água, a carrega pelo deserto e a deixa cair de novo. Caindo como chuva, a água de novo se torna um rio.’
‘Como eu posso saber que isso é verdade?’
‘É verdade, e se você não puder acreditar você não pode ser mais do que um brejo, e mesmo para isso, pode levar muitos, muitos anos; e isso não é certamente o mesmo que ser um rio.’
‘Mas eu nao posso permanecer o mesmo que sou hoje?’
‘Você não pode permancer o mesmo em nenhuma das situações’, o sussurro falou. ‘ A sua parte essencial é carregada e forma um rio de novo. Você é chamado pelo que é, até hoje, porque você não sabe qual parte de você é a essencial.’
Quando ele ouviu isso, alguns ecos começaram a aparecer nos pensamentos do rio. De uma maneira turva, ele se lembrou de um estado em que ele ,– ou foi uma parte dele? – era seguro pelos braços do vento. Ele também se lembrou – se lembrou? – que isso era a coisa real , não necessariamente a coisa óbvia, a ser feita.
E o rio elevou seu vapor nos receptivos braços do vento, que gentil e facilmente o sustentou, para cima e para frente, deixando-o cair delicadamente assim que eles alcançaram o topo da montanha, muitas, muitas milhas além. E porque ele tinha tido tantas dúvidas, o rio era capaz de lembrar e gravar mais fortemente em sua mente os detalhes da experiência. Ele refletiu. ‘Sim, agora eu aprendi minha verdadeira identidade’.
O rio estava aprendendo. Mas as areias disseram: “Nós sabemos porque nós vemos isto acontecer dia após dia.: e porque, nós, as areias, nos estendemos desde a lateral dos rios até a montanha.”
E é por isso que é dito que o caminho no qual o Rio da Vida tem que continuar a sua jornada está escrito nas Areias.
o original em inglês pode ser lido aqui: http://www.bluewindproductions.com/sandstext.htm
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Bonito.
Fiquei contente de ver “Sufismo” nas categorias.
Primeira vez que entro no espaço novo! Bah, mais uma vez preciso dizer que adorei as novas postagens. Vcs são 10. Um grande abraço e obrigada!
Interessante esse conto, gostei.
Bom pra refletir enquanto beberica um café.
=)
o que me disseram, entre tantas coisas que eu nao havia percebido, eh que se trata da historia de um rio, mas se chama o conto das Areias…
as Areias sao o obstaculo, o limite, o que pode absorve-lo. Mas tambem sao as Areias que susssuram que hah a possibilidade de superar-se, conhecer-se e enfim, revelar-se. Sao as areias, o principal personagem desta historia.
No fundo, Malu, eu me identifico muito com o rio…
eu tambem me identifico com o rio. O esforco eh para aprendermos que somos a agua ou a essencia…
É isto mesmo, tal qual o rio à princípio, estamos sempre fazendo e desfazendo esquemas com os quais a mente possa construir estratégias em busca de segurança e permanência. E com isto, vamos invalidando os diferentes aspectos do nosso ser; ignorando-os, cristalizando-os e nos perdendo de nossa essência.
Ouvir o sussuro das Areias significa nor permitir maior fluidez; menos controle sobre nossa mente e a maneira como ela, espontaneamente, reage às diversas situações que se apresentam, tendo então a chance de se transformar, retransformar …. mesmo que um pedacinho ou outro seja absorvido por aí!!!
Parabéns, Lu pela estréia e por nos trazer um conhecimento tão útil, tão forte, de uma forma tão suave.
Bjs
o rio é denso qual a carne e o mundo é, mas maleável para poder fluir, mas pode se tornar leve como o espírito sem corpo é, mas quando o rio se torna um leve vapor no ar, é o espírito do rio, ali, elevando-se, que se faz infinito e eterno, pois em seu ciclo, quando ele retorna à terra, temos nada mais que a alquimia de seu espírito retornando a densificar-se, pois a criação é uma dança, de onde aqui intuo que movimento é sinônimo de vida, e assim o rio denso qual a carne e o mundo é prossegue seu papel no jogo do mistério da criação. a natureza e seus ciclos. os sufis e sua contemplação. escrevi por nada. quero vir a ser um limãozinho um dia, até o limão é alquimista. ele é acido, mas alcaliniza.
Querida Malu, amei o conto! Como é bom quando temos coragem de deixar o vento nos levar… beijos saudosos
Interpreto intuitivamente as Areias como nosso caminho no denso, no elemento Terra, que pode tanto nos absorver como elevar-nos a consciência, de acordo com nossas capacidades! Viva para as Areias!
Alguém conhece “A Terceira Margem do Rio”?
Selene eu conheco o conto, eh bonito, mas eh dificil de entender tambem – pelo menos para mim. Voce tem sua interpretacao?
O que tenho de lembranca eh que eh uma metafora da morte, sobre morte que se pode ter em vida. Morte do ego, ou como sempre, sobre a luta em integra-lo. Sobre a dificuldade de render-se. O que acontece com o personagem na hora que parece que o pai vai deixar a canoa….
Mas eh Guimaraes Rosa, entao eh isso e muito mais…Nunca li um livro dele, mas conheco trechos, minha opiniao eh superficial apenas.
deixo um link para o conto, pra quem quiser me ajudar a entende-lo
http://www.releituras.com/guimarosa_margem.asp
Chris: Viva para as Areias
Roby: Viva para os Ventos
Gabi: Viva para as Aguas
Fy: Viva para o Fogo (acabamos de criar um blog!)
Jebedia: Viva a Alquimia dos Elementos em nossa Vida!