Insiste em ti mesmo; nunca imites. A todo o momento, podes exibir o teu próprio dom com a força cumulativa de toda uma vida de estudo; mas do talento imitado de outro tens apenas posse parcial e momentânea. Aquilo que cada um sabe fazer de melhor só pode ser ensinado por quem o faz. Onde está o mestre que pudesse ter ensinado Shakespeare? Onde está o mestre que pudesse ter instruído Franklin, ou Washington, ou Bacon, ou Newton? Todo o grande homem é único.
Ralph Waldo Emerson, in “Essays”
Arquivado em: Filosofia
Emerson é mesmo um puta autor. Cada vez que eu tropeço numa frase dele, juro pra mim mesmo que um dia vou ler os Ensaios de cabo a rabo. E o nosso “coletivo” não podia ter encontrado uma apresentação mais adequada.
Abs.
L.
Todo homem eh unico. E a sua Verdadeira Vontade eh o que lhe confere essa particularidade.
Mas fico a me perguntar o que acontece com aqueles que nao experienciam nada de unico, seja pela inconsciencia ou pela dificuldade da busca da Verdadeira Vontade.
Não tenho muita certeza se existe alguém que não experimenta realmente NADA de único. O cabra pode não perceber, pode ter sido programado e se programar pra não dar importância, mas que a essência dele tá lá, tá. Em todo caso, quanto menos contato ele tem com ela, mais se identifica com a persona, a imagem e o papel sociais, o homem externo, que vive por, para e pelos ideais coletivos. É o que o Jung chamava de “homem-massa” e o que o Nietzsche descrevia como mentalidade de rebanho.
Abs.
L.
Nunca li Emerson, mas gostei do texto.
Passei aqui pra dizer que estou lendo tudo, mas realmente sem tempo de escrever algo (estou mudando sabado, e empacotando tudo aqui em casa, depois tenho que colocar tudo no lugar, hehehe).
Vou poder participar melhor semana que vem.
Tambem ainda nao instalou internet no novo endereco e, talvez eu fique ausente uns dias.
Peco desculpas por isso jah logo no inicio do blog, mas prometo que depois que passar, vou estar mais presente.
)
Lucio, me desculpe a intromissao, e tambem nao eh da minha conta; mas jah que Malprg morreu, talvez nao seria melhor mudar o nick Malprg.
abs
Adi
Adi, a minha intenção é essa, mas ainda não “bateu” um nick novo decente. Enquanto isso, eu continuo usando a casca do Malprg.
Abs.
L.
autor: sem mais
Vinda do Franco-Atirador e ainda não entendendo muito bem como funciona esse espaço, mas disposta a participar dele, pois em qual outro lugar encontraria pessoas igualmente interessadas em refletirem a respeito das mesmas grandes (e pequenas) questões, as quais também tenho debatido?
Nietzsche diz que somos uma corda sobre o abismo, Malprg (enquanto seu outro nick não vem) de que somos a não-dualidade, e eu, em outras palavras, acho que é exatamente isso, somos em parte o que pensamos – imaginamos – e em parte o que fazemos. Somos essência & existência, ou mais, ainda, se olhamos em uma direção, vemos nosso outro lado atuando, mas, se nos voltamos para esse, voltamos a ver o outro… Sob essa perspectiva, semelhante a de Nietzsche e de Jung, quem somos pode ser apenas a visão de por qual lado olhamos. Somos então mistério insondável, sempre, enquanto nos vemos onde não estamos…
Mas será que existe alguma possibilidade de um dia nos vermos face a face, como promete Saulo em CorÃntios? Ou descobrir o que Buda viveu sob a figueira? E qual a dimensão do perigo, em um jogo sem espelhos e projeções, de fitarmos o abismo do nosso ser? Da psicanálise nos vem essa necessidade do espelho, não apenas como proteção contra a Górgona (o mito do horror), mas também a necessidade do outro, em quem nos projetamos – nos espelhamos, para através dele descobrirmos (em parte) quem somos.
Acontece que um dia, é fatal, o outro nos chegará como entardecer ou noite, ou pelo menos é essa a leitura que fiz desse composto – meio palavra estado de espÃrito e lugar – chamado “anoitã”… peço permissão para citar Manuel Bandeira, porque quando eu li “anoitã” foi a poesia que me veio:
“Quando a indesejada das gentes chegar
(Não sei se dura ou caroável),
Talvez eu tenha medo.
Talvez sorria, ou diga:
– Alô, iniludÃvel!
O meu dia foi bom, pode a noite descer.
(A noite com os seus sortilégios).
Encontrará lavrado o campo, a casa limpa,
A mesa posta,
Com cada coisa em seu lugar.”
Falando em poesia, que é outra linguagem de se falar da mesma coisa, do mistério e da inquietação do ser sem lugar, as palavras do Ralph Waldo Emerson, logo ali no começo, me lembraram um outro poema, mais conhecido, porém, não menos belo por isso – do Ricardo Reis, um dos heterônimos menos brilhantes do Fernando Pessoa. Mas essa sua poesia é brilhante:
“Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mÃnimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.”
Concluindo, somos em parte nossa história pessoal e em parte a história de toda a humanidade. Somos aquilo que sabemos (ou supomos saber) e também aquilo que temos potencial para descobrir. Mas, todas essas possibilidades de vir-a-ser, só ganham sentido quando na ação do laborioso fazer nosso de cada dia-a-dia…
Tendemos a nos dar contornos – o que é bom e desejável ser um indivÃduo, a chamar de “eu” a algo que imaginamos como separado do todo, mas, em última instância, não há contorno algum, somos todos parte de um único organismo, que alguns chamam Self, outros Deus e eu estou chamando universo – sem ser propriamente panteÃsta por isso.
Uma das poucas certezas que tenho é de que os nossos destinos (o de cada um de nós) está selado a esse todo universal. Não vejo, de modo algum, por mais aparente que seja o nosso destino ser singular, ele desvinculado de um “objetivo” maior. Afinal a “realidade” é o Todo Universal, a Psique Objetiva de Jung, o Tao… a iluminação nada mais seria que o dar-se conta disso, ou melhor, viver em consciência junto a essa realidade, sendo essa realidade, o que é praticamente uma impossibilidade humana.
Enfim, poesia, filosofia, psicologia, religião, espiritualidade… são todas linguagens distintas falando e buscando a mesma coisa: a unidade do homem ao universo. O paradoxo é que só temos vislumbre da totalidade sendo parciais, sendo nós quem somos em nossa pequenez e reconhecendo a singularidade de nosso único ponto de vista.
Bom, é isso, estou por aqui lendo vcs…