Normalmente, falamos muito sobre nós na primeira pessoa. O interessante é analisar que essa é uma inverdade heraclitiana : ninguém pode falar sobre si mesmo, porque aquele que fala não é aquele que age. Talvez aí esteja encerrada a resposta para uma das mais candentes questões que o ser humano sempre se propôs: quem sou eu?
Ao perceber que o foco da narrativa se desloca ao longo de um eixo de observação, aquele que se propõe seriamente deslindar essa pergunta percebe que não é válido pensar em si e nas próprias ações como “eu”. O que parece ocorrer então é que uma série de personagens mais ou menos interligados entram e saem desse eixo, traçando linhas que plotam um gráfico existencial ao redor do mesmo. Se imaginarmos tal gráfico como sendo multidimensional, conseguimos uma pálida idéia do que ocorre em nossa existência a partir desse conceito.
Porém, aceitar que o Eu individual é composto por essas personas transitórias e imprecisas é passível de erro por não ser uma descrição completa do processo da existência – no caso, a existência de uma consciência que analisa a si mesma. Existe um cerne, um nível de informação que subjaz às camadas de “eus” que se manifestam nesse verdadeiro angu de caroço. A tal cerne, muitos denominam essência.
O perigo em usar esse termo (ou outro equivalente) é que a mente está acostumada a identificar-se com a miríade de “eus” do gráfico já citado. Tendemos sempre a considerar a essência como um “eu grandão”, e aí falhamos: a essência não é um “eu”.
Em uma análise mais profunda, tanto psicanaliticamente, quanto filosoficamente (e principalmente, religiosamente falando) essa essência, ou superego, ou alma, é mais um evento de consciência do que uma persona em particular. Daí a dificuldade em caracterizar em nossa mente esse “eu verdadeiro”: as personas que racionalizamos e identificamos como nós mesmos, e que exatamente por isso são aspectos dissociados de um todo, são funções específicas do hemisfério esquerdo do cérebro, enquanto que a experiência do evento de consciência que denominamos “essência” é multifacetada, holística, integrativa e específica do hemisfério direito.
Até que ponto essa análise é verdadeira ou válida, cabe a cada um que deseja saber quem realmente é vivenciar isso, integrando essas funções do hemisfério direito e esquerdo, e descobrir que realmente somos uma não-dualidade.
Arquivado em: Filosofia, Não-dualidade
>Tendemos sempre a considerar a essência como um “eu grandão”, e aí falhamos: a essência não é um “eu”.
Pois é, a minha grande pinimba com o “Eu Superior” dos teósofos é essa – o nome faz a gente pensar inevitavelmente num “eu grandão”, e não é nada disso. Daí é muito fácil confundir o “Eu” “Superior” com uma simples inflação do ego, inebriado pelos vapores arquetípicos…
>as personas que racionalizamos e identificamos como nós mesmos, e que exatamente por isso são aspectos dissociados de um todo, são funções específicas do hemisfério esquerdo do cérebro, enquanto que a experiência do evento de consciência que denominamos “essência” é multifacetada, holística, integrativa e específica do hemisfério direito.
Opa, gostei dessa interpretação – suponho que esses pequenos eus possam ser considerados recortes sequenciais que o hemisfério esquerdo, com sua lógica momento-a-momento, faz no fluxo contínuo da consciência. Isso estaria de acordo com a perspectiva budista de que o ego surge quando a gente se identifica com uma configuração momentânea dos dados da consciência e tende a querer perpetuá-la.
Abs.
L.
Hum, se não existe um da gente que parece passar pela história, seja através da herança de memórias genéticamente ou mesmo pela reencarnação, porque o Jung falava que cada um de nós tem uma imagem primordial?
E esse eu, do qual vez ou outra partilhamos (em sonhos , por exemplo, nos vemos, através dele como atores)o olhar camaleônico- cada qual olhando para um lado e misturando cenas do dia-a-dia e outras nem tão conhecidas, presente, passado e futuro, nos transmitindo informações, analisadas na terapia, tá preso então em um lado do cerébro? Se tá preso, como pode ver cenas do futuro?
Bj!
Ops, digo “se não existe um “eu” da gente..
“Até que ponto essa análise é verdadeira ou válida, cabe a cada um que deseja saber quem realmente é vivenciar isso, integrando essas funções do hemisfério direito e esquerdo, e descobrir que realmente somos uma não-dualidade.” Desculpem-me, mas não entendi. Se no texto admite-se as multiplicidades em nível de ego e em nível de essência (“essência” é multifacetada, holística, integrativa) como vou “descobrir que realmente” sou uma “não-dualidade”, ou seja, um?
E se este um for o resultado do ajuntamento destes dois lados do cerébro, então eu sou tudo ou não sou nada. Isto não me satisfaz. Gostaria de saber o que é esta imagem primordial que jung se refere. Obrigada!
Se sou esta massa amorfa de tudo ou nada, porque o Jung fala em individuação?
>Porém, aceitar que o Eu individual é composto por essas personas transitórias e imprecisas é passível de erro por não ser uma descrição completa do processo da existência – no caso, a existência de uma consciência que analisa a si mesma. Existe um cerne, um nível de informação que subjaz às camadas de “eus” que se manifestam nesse verdadeiro angu de caroço. A tal cerne, muitos denominam essência.
Bem, aí está meu ponto de vista sobre isso. Há sim aquilo que PODERIA ser denominado Eu Superior, mas essa denominação é falha porque implica que ele é reconhecível como “eu”.
O processo de individuação não é um processo de egoicização, ou seja, uma identificação restrita do observador com aquilo que observa. A individuação é mais um reconhecimento (e não identificação) que o Todo faz de si em suas partes, e das partes ilusoriamente divididas em ser um com o Todo.
Essa imagem primordial me parece mais com a primeira ilusão do ser, quando o Inominável Incognoscível diz “Eu Sou”.
A percepção final de que somos uma não-dualidade é intelectual na justa medida em que se entende que se é um apesar da aparência de multiplicidade, e vivencial quando se experimenta a verdade do ser, que é sem palavras.
Essa aparente multiplicidade dificulta e muito o entendimento de que tudo é uma coia só. -_-’
Lendo seu post, me lembrei de 2 livros q li doPirandello; onde ele se concentra no problema da identidade, do quem-sou-eu.
Um, Nenhum e Cem mil; onde seu personagem Vitangelo ( inesquecível) que nunca percebeu um defeitinho no próprio nariz, tem uma crise de identidade qdo sua mulher o aponta. Horrorizado ele se toca q nunca soube e nem sabe nada sobre si mesmo:
Como suportar em mim este estranho? Este estranho que eu mesmo era para mim? Como não ver? Como não o conhecer? Como ficar sempre
condenado a levá-lo comigo, em mim, à vista dos outros e no entanto invisível para mim ?
- { acho q todo mundo de repente, pela vida, se depara com estes estranhos ou estes estranhos eventos de consciência q moram dentro dagente !)
E 6 Personagens à Procura de um Autor, onde a análise e a dissolução de um eu unificado são levadas ao extremo tb.
É uma super dica.